October 5, 2018 / 9:23 PM / 14 days ago

PERFIL-Do seringal à corrida eleitoral, Marina tenta quebrar contradições

BRASÍLIA (Reuters) - A postura determinada e combativa de Marina Silva, característica oposta à aparência frágil da candidata da Rede, não foi suficiente para colocá-la entre os primeiros colocados nas pesquisas eleitorais, assim como não vingou a tentativa da presidenciável de se firmar com a terceira via capaz de unir o país em tempos de polarização.

Candidata da Rede à Presidência, Marina Silva, acena a simpatizantes em Brasília 13/09/2018 REUTERS/Adriano Machado

A candidata figurava nas pesquisas, até o início de setembro, como a adversária mais próxima do primeiro colocado, Jair Bolsonaro (PSL), nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma vez, sua candidatura —terceira tentativa de chegar ao Planalto— era encarada como promissora e competitiva.

Mas após o atentado a faca contra Bolsonaro, e a negativa da Justiça à candidatura de Lula e a consequente confirmação de Fernando Haddad como nome do PT, Marina viu suas intenções de voto evaporarem. A candidata pôs em prática, então, um discurso pelo voto de convicção —“a pesquisa não decide o voto do cidadão”, postou em uma rede social. Mas a estratégia não surtiu efeito.

Descrita por pessoas próximas como uma pessoa que sabe escutar, sem que isso a impeça de defender suas ideias com firmeza, Marina, inclusive, protagonizou um dos embates mais diretos entre os concorrentes ao vivo, durante debate da Rede TV, em meados de agosto.

Bolsonaro havia perguntado à presidenciável sobre a flexibilização das regras para o porte de armas, uma das bandeiras do candidato. Após rápida negativa, Marina partiu para o ataque, questionando a postura do adversário sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres.

“Você disse que a questão dos salários menores para as mulheres é uma coisa que a gente não precisa se preocupar porque já está na CLT”, disse Marina, no debate. “Só (diria isso) uma pessoa que não sabe o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência, e ser a primeira a ser demitida, ser a última a ser promovida e quando vai numa fila de emprego, pelo simples fato de ser mulher, não é aceita.”

Em seguida, após réplica de Bolsonaro que tentava deixá-la desconfortável com o fato de ser evangélica mas preferir que a sociedade discuta e decida sobre a polêmica descriminalização do aborto, por exemplo, defendeu-se: “você acha que pode resolver tudo no grito, na violência.”

O pupilo da ex-senadora e candidato a deputado federal pela Rede Zé Gustavo ressalta que “ela é aberta ao diálogo, à troca, mas quando é para ser enérgica, é enérgica”.

“Faz as coisas, tem uma energia, uma vitalidade muito grandes. O pessoal olha e a vê franzina, mas não tem noção da capacidade de trabalho dela”, garante Zé Gustavo, segundo quem Marina preserva tom “pedagogizante” ao conversar com os companheiros mais jovens.

Na opinião de outra pessoa próxima, que acompanhou a candidata desde os primórdios de sua atuação política no Acre, Marina já viu seu temperamento e o apego às convicções lhe renderem reveses. Segundo esse amigo, que preferiu não ser identificado, a ex-ministra reúne as características típicas de um perfil combativo: assume a linha de frente, mantém posições.

“Mas aí vem um aspecto negativo que é ser pouco flexível, no geral, e que vai para cima quando tem uma posição”, disse o amigo.

Marina “suavizou” a atuação com o passar do tempo, relata o amigo, mas isso não a impediu de bater o pé quando considerou necessário, mesmo sob a ameaça de perdas políticas.

PRIMEIROS CONTATOS

O histórico de saúde corrobora a aparência frágil da política. Aos 16 anos, teve a primeira de três hepatites. A doença no fígado conferiu à candidata uma intimidade com o tratamento e seus custos. Nesta campanha de 2018, Marina conseguiu na Justiça a suspensão da concessão de patente de remédio contra a hepatite C à farmacêutica norte-americana Gilead Sciences, o que pode facilitar e baratear o acesso ao medicamento na rede pública de saúde.

A presidenciável ainda foi vítima de cinco malárias, além de uma leishmaniose, o que a levou a Rio Branco em busca de tratamento.

Foi na capital do Acre que Marina, filha de seringueiros, teve seus primeiros contatos com a política ao ler durante a missa um cartaz sobre curso de liderança sindical rural com Chico Mendes e o padre Clodovis Boff.

Marina já vivia no convento das Servas de Maria Reparadoras, onde teve contato com o então bispo de Rio Branco, dom Moacyr Grecchi, alinhado à Teologia da Libertação. Ali, passou a atuar nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

A participação em movimentos sociais a levou a liderar em 1988 ao lado de Chico Mendes os chamados movimentos de empates, em que barreiras humanas eram formadas para impedir ações de desmatamento.

Alguns anos à frente, já como ministra do Meio Ambiente e após ter tido experiência como vereadora, deputada estadual e senadora, enfrentou embates com a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao ponto de deixar a pasta, em 2008.

Ainda assim, Marina mantém a fé na busca da resolução de conflitos por meio do diálogo. Foi com essa estratégia, conversando com cada parlamentar, que garantiu a aprovação da chamada Lei da Mata Atlântica, conta o amigo próximo.

E é dessa forma que vem prometendo, já há duas eleições —primeiro pelo PV e depois pelo PSB—, tentar imprimir um novo jeito de fazer política. A ideia, explica Zé Gustavo, seria buscar os denonimadores comuns e usar o programa de governo a ser chancelado por uma eventual vitória nas urnas para convencer —e até mesmo constranger— parlamentares.

FALAR O QUE PENSA

É pelo debate que ela tenta lidar com saias justas como as polêmicas discussões sobre a descriminalização do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

“Boa parte das pessoas não diz o que pensa, o que acredita, para não perder voto”, declara Marina em vídeo disponível no site da Rede sobre aborto. “Eu não me somo àqueles que ficam satanizando, ou os que têm teses dizendo que é um caminho. Eu prefiro ir para o debate do que para o embate”, afirma.

Na avaliação do amigo, Marina trata a religião como uma questão de foro íntimo, não a utiliza como um palanque, e defende o Estado laico.

Antes de praticar a fé evangélica, Marina alimentava o sonho de ser freira, o que acabou instigando sua vontade de se alfabetizar, já que não poderia exercer a vocação sem saber ler ou escrever.

Nascida em 8 de fevereiro de 1958 em Breu Velho, no Seringal Bagaço, perto de Rio Branco, a hoje candidata traz um histórico de superações.

Além da pobreza e da saúde debilitada, enfrentou a morte da mãe quando tinha 15 anos e uma vida difícil no seringal. Ao mudar-se para Rio Branco, trabalhou como empregada doméstica, enquanto investia nos estudos. Alfabetizou-se no Mobral, concluiu o 1º e o 2º graus em supletivos e formou-se em História pela Universidade Federal do Acre. Concluiu ainda pós-graduações em Teoria Psicanalítica, pela Universidade de Brasília (UnB), e em Psicopedagogia, na Universidade Católica de Brasília.

E ao longo desses anos, garantem os mais próximos, não acumulou inimigos —não de sua parte, explicam. Chega até, na opinião do amigo, a dispensar tratamento melhor do que deveria a alguns que teriam sido injustos com ela. É de seu feitio, diz, não transformar adversários em inimigos.

Na reta final deste ano, aposta suas últimas fichas nas redes sociais, insistindo na ideia de que o país precisa de uma terceira via, alheia à polarização vigente.

“A gente está vivendo um momento muito difícil na política, que é essa história de que existem os salvadores da pátria. A pátria é uma construção de todos nós”, diz a candidatada em vídeo divulgado em seu perfil do Twitter nesta semana, que também traz depoimentos de duas de suas filhas.

“Na democracia a gente não pode oferecer às pessoas um destino. Só os tiranos oferecem um destino. Os democratas oferecem a possibilidade de uma vida melhor.”

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