April 24, 2020 / 6:53 PM / a month ago

PERFIL-Símbolo da Lava Jato e cotado para Presidência, Moro encerra passagem no governo Bolsonaro

SÃO PAULO (Reuters) - Emblema da operação Lava Jato, Sergio Moro chegou a ser apontado como possível presidenciável ainda em 2018 e abandonou uma carreira de 22 anos como juiz para aceitar ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, posto que ocupou por 1 ano e 4 meses até esta sexta-feira, quando saiu fazendo acusações ao agora ex-chefe.

Sergio Moro 24/04/2020 REUTERS/Ueslei Marcelino

Visto por muitos como uma possível ameaça às pretensões que Bolsonaro nutre desde o início de seu governo de se reeleger em 2022, Moro aceitou ser ministro depois de negar diversas vezes enquanto magistrado que entraria na política. Nomeado ministro, rejeitou a ideia de que a posição fosse a de um político.

O aceite de Moro foi considerado, à época, um “gol de placa” por aliados de Bolsonaro, candidato que teve no combate à corrupção uma de suas principais bandeiras eleitorais.

Convencido por uma promessa de que teria carta branca para atuar e escolher seus auxiliares, Moro decidiu pedir demissão nesta sexta por discordar da exoneração de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal, da qual ele disse ter ficado sabendo quando foi publicada em edição extra do Diário Oficial na madrugada desta sexta.

Moro, de 47 anos, ganhou notoriedade nacional como juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, onde presidiu processos da operação Lava Jato, o mais notório deles o que levou à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) confirmar em segunda instância a sentença de Moro que condenou o petista.

A condenação na segunda instância, no processo sobre o tríplex em Guarujá (SP), impediu Lula, com base na Lei da Ficha Limpa, de disputar a Presidência na eleição daquele ano, quando liderava as pesquisas de intenção de voto.

“SUPERMINISTRO”

Alçado por muitos ao posto de paladino do combate à corrupção, Moro abandonou a magistratura e aceitou convite para comandar o reunificado Ministério da Justiça e Segurança Pública em novembro de 2018, dias depois da vitória eleitoral de Bolsonaro no segundo turno contra o petista Fernando Haddad. O agora ex-ministro sempre negou que tivesse acertado a ida ao governo antes disso.

Com a promessa de Bolsonaro de que teria carta branca e apontado como um “superministro”, Moro tinha a intenção de realizar uma série de mudanças legislativas que, na sua visão, facilitariam o combate à corrupção no país. O ministro, no entanto, enfrentou obstáculos no Congresso e teve decisões suas contrariadas por Bolsonaro.

No primeiro dia do ano legislativo de 2019, bem antes de o governo apresentar qualquer proposta de reforma econômica, Moro entregou ao Congresso o chamado “pacote anticrime”.

A tramitação da proposta, entretanto, foi demorada e a versão aprovada, somente em dezembro do ano passado, foi bastante desidratada e alterada em relação ao texto original entregue por Moro. Mais que isso, ele sugeriu a Bolsonaro que realizasse vetos à proposta —como à criação do chamado juiz de garantias— mas a sugestão foi rejeitada pelo presidente.

Moro também teve de lidar no ano passado com a divulgação pelo site The Intercept Brasil de mensagens trocadas por ele na época em que era juiz com procuradores que atuavam na Lava Jato. As conversas indicaram que ele orientou o trabalho do Ministério Público no caso, o que violaria a separação entre os órgãos acusador e julgador.

O então ministro disse não reconhecer a autenticidade das mensagens e que não se recordava se as havia trocado. Ao mesmo tempo, afirmou que, se verdadeira, a conversa com os procuradores não revelavam qualquer ilegalidade.

Nesta sexta, ao anunciar sua demissão, Moro apontou a necessidade de defender a autonomia da PF, segundo ele ameaçada por Bolsonaro, e reclamou da quebra da promessa de que teria carta branca. Disse ainda que considerou ofensiva a forma que a exoneração de Valeixo foi feita e que entendeu o movimento como uma sinalização de que Bolsonaro não o queria mais no cargo.

Ao comentar seu futuro após deixar o ministério nesta sexta, Moro disse estar “à disposição para ajudar o país”.

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