10 de Novembro de 2007 / às 13:14 / em 10 anos

Pinturas de Botero sobre Abu Ghraib são exibidas em Washington

Por Adriana Garcia

WASHINGTON (Reuters) - O artista colombiano Fernando Botero ganhou fama com suas alegres pinturas de pessoas gordinhas, mas, depois de ouvir as notícias sobre os casos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, a obra dele adquiriu um tom mais soturno.

O artista canalizou sua indignação para 79 pinturas e desenhos atualmente expostos em uma exibição que estreou nesta semana, em Washington.

Botero afirmou a estudantes e visitantes presentes à mostra que esperaria ver ditadores do Terceiro Mundo agredindo prisioneiros, mas não os EUA, que, segundo o artista, defendem os direitos humanos e a democracia.

“Ficar sabendo que os norte-americanos estavam torturando foi um choque para o mundo todo”, disse. “Fiquei transtornado quando li a respeito disso na imprensa dos EUA.”

Tomado por estado de espírito, Botero pintou. E, durante os últimos três anos, o artista bateu na porta de museus norte-americanos, mas ninguém parecia disposto a exibir a coleção completa. Até a Universidade Americana aceitar receber a mostra.

O pintor, que mora em Paris, retratou o sofrimento e a dignidade das vítimas, e não os agressores. As imagens mostram os corpos rechonchudos de Botero no corredor da prisão iraquiana, nus e com marcas de sangue, os rostos tomados por uma expressão de dor, os dentes a ranger.

“Foi doloroso pensar sobre isso e foi doloroso pintar isso. É diferente pintar uma odalisca, uma mulher bonita ou uma paisagem”, afirmou. “(Mas) a gente sabe que está fazendo algo sério, algo muito dramático,” acrescentou.

Segundo Botero, as pinturas são para serem “vistas, e não vendidas”, de forma que decidiu doar toda a coleção para um museu. A exibição integra uma mostra chamada “Arte da Confrontação,” que deve estender-se até 30 de dezembro e que ocorre no Centro de Artes Katzen, dentro da universidade.

Botero disse prever que será criticado nos EUA, como foi na Europa quando as obras foram exibidas lá, por pessoas que discordam do ponto de vista dele.

“Houve críticas, ligações telefônicas, cartas e declarações de ódio. O que era previsível”, afirmou.

Apesar de seus esforços para retratar os horrores da tortura, o pintor não acredita que a arte consiga mudar o mundo.

“‘Guernica’ foi o maior quadro do século 20, mas não conseguiu fazer nada contra Franco (o ditador espanhol Francisco Franco)”, declarou ele, referindo-se à obra-prima de Picasso.

“Mas isso lembrará as pessoas de um momento deplorável deste governo, lembrará as pessoas do que é a tortura”, afirmou.

Quando um estudante perguntou quem ele gostaria de convidar para ver a mostra, Botero respondeu: “Bush (George W. Bush, presidente dos EUA)”.

Depois da exibição em Washington, as pinturas de Botero seguem para Monterrey, no México.

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