30 de Abril de 2008 / às 15:12 / 10 anos atrás

Documentário em Tribeca conta vida de ex-soldado mirim de Uganda

Por Kristina Cooke

NOVA YORK (Reuters) - O que chamou a atenção do cineasta americano Kief Davidson no ex-soldado mirim de Uganda e atual campeão mundial de boxe Kassim “The Dream” Ouma foi o fato de ele viver sorrindo.

Davidson ficou fascinado com a maneira como Ouma enfrentou seu passado. Ele foi sequestrado aos 6 anos de idade, quando estava na escola, pelo exército rebelde de Yoweri Museveni -- hoje presidente do Uganda.

Mais de dois anos depois de o diretor ver Ouma num noticiário de televisão, seu belo documentário “Kassim The Dream” estreou na sexta-feira no Festival de Cinema Tribeca, em Nova York.

No filme, Davidson conta a história da primeira viagem que Ouma fez de volta a Uganda desde que fugiu para os EUA, em 1998.

As filmagens aconteceram no ano passado, durante um cessar-fogo entre o governo de Museveni e o rebelde Exército de Resistência do Senhor.

Mas as negociações fracassaram no início de abril, após quase dois anos. A guerra civil já dura 22 anos e deixou dezenas de milhares de mortos e 2 milhões de deslocados, apenas no norte do Uganda.

Ouma, que aprendeu boxe no exército, fugiu para os EUA aos 19 anos, usando um visto que recebeu para participar de um campeonato militar de boxe. Ele chegou ao país sem ter onde morar e sem falar inglês.

“O boxe foi minha porta de saída e é minha terapia”, disse Ouma, 29 anos.

E foi sua fama como boxeador, especialmente depois da muito noticiada luta contra o campeão dos pesos médios Jermain Taylor, que levou o presidente ugandense Yuseveni a lhe conceder um perdão e a possibilidade de voltar a seu país.

O diretor Davidson disse: “Kassim tinha medo. Os militares tinham dito que se ele voltasse a pôr os pés em Uganda seria julgado por deserção, e a pena para a deserção é a morte.”

Mas, disse o diretor, Ouma viu as câmeras como sua proteção. A equipe de filmagem tinha o apoio de senadores americanos e ONGs que ajudaram o boxeador a receber o perdão presidencial.

Davidson também temia que algumas pessoas pudessem querer se vingar do pugilista. “Quem sabe quem ele matou no passado? Ele foi vítima e também perpetrador de crimes”, disse o diretor.

Ouma disse que espera que o filme divulgue a situação dos soldados mirins e das pessoas que vivem em campos de deslocados, temendo retornar a seus povoados.

Dando o sorriso largo que já virou sua marca registrada, ele revelou que, depois do boxe, gostaria de atuar em filmes de artes marciais.

“Vou ser o Jet Li africano”, disse ele. “Esperem para ver!”

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