8 de Janeiro de 2015 / às 11:29 / 3 anos atrás

Artistas defendem liberdade de expressão, mas temem a censura sobre o Islã

ESTOCOLMO/COPENHAGUE (Reuters) - Os cartunistas e escritores defenderam a liberdade de expressão após o ataque de quarta-feira a um jornal semanal satírico em Paris, mas a realidade para alguns artistas acusados de insultar o Islã tem sido anos na clandestinidade, necessidade de proteção da polícia e, para alguns, a censura.

Mulher olha capas de jornais em banca de Nice, na França. 08/01/2015 REUTERS/Eric Gaillard

Entre os 12 mortos no Charlie Hebdo, um semanário que satiriza o Islã e outras religiões, estavam alguns dos melhores cartunistas da França. Antes deles, outros artistas, como o sueco Lars Vilks, também foram alvo de ameaças ou violência física.

“Quando você elimina um dos poucos bastiões da liberdade de expressão que temos, e ele foi tirado, quem se atreve a publicar qualquer coisa agora?”, disse Vilks.

Vilks foi colocado sob proteção policial depois que uma charge sua retratando o profeta Maomé como um cão, em 2007, provocou ameaças de morte e uma oferta de 100 mil dólares de recompensa por sua cabeça, feita por um grupo iraquiano ligado à Al Qaeda.

“Se você fizer uma charge de Jesus ou do Papa pode ser publicado, mas o profeta Maomé é proibido em todos os meios de comunicação social. É regulado pelo medo misturado com o politicamente correto”, disse Vilks à Reuters.

No início de 2014, uma mulher norte-americana autodenominada Jihad Jane foi condenado a 10 anos de prisão por conspirar para matar Vilks.

Vilks diz que sua carreira foi prejudicada por preocupações quanto à segurança até mesmo com trabalhos não relacionados ao Islã.

Artistas de toda a Europa falam do temor de que o ataque a Charlie Hebdo possa conduzir à autocensura à sátira religiosa, especialmente sobre o Islã. Para os muçulmanos, qualquer representação do profeta é uma blasfêmia e caricaturas ou outras caracterizações provocaram protestos em todo mundo islâmico.

Um grande jornal dinamarquês, o Politiken, pediu desculpas no passado pela publicação de uma charge que desagradou aos muçulmanos. “O Politiken reconhece e lamenta que a nossa reimpressão da charge tenha ofendido os muçulmanos na Dinamarca e em outros países por todo mundo”, disse em um comunicado em 2010.

Um ímã de um subúrbio de Paris destacou a ofensa que o Charlie Hebdo tinha causado, mas rejeitou a violência como uma resposta para os muçulmanos. “Nós não concordamos com Charlie Hebdo. Combata o desenho com um desenho, mas não com sangue, não com ódio”, disse Hassen Chalghoumi, ímã de Drancy.

A Suécia e a Dinamarca, países escandinavos cuja sociedade tem reputação de tolerância, estiveram no centro das controvérsias em todo o mundo na última década por representações de Maomé.

O Charlie Hebdo também é conhecido por provocar polêmica com ataques satíricos sobre líderes políticos e religiosos, e publicou numerosos caricaturas ridicularizando o profeta Maomé.

“‘O respeito pela religião’ tornou-se uma frase código que significa ‘medo da religião’”, disse o escritor Salman Rushdie, em comunicado. “As religiões, como todas as outras ideias, merecem crítica, sátira, e, sim, o nosso desrespeito destemido”, disse Rushdie, cujo livro “Os Versos Satânicos” levou o então líder iraniano aiatolá Ruhollah Khomeini, já falecido, a emitir uma fatwa contra ele em 1989.

“A autocensura é uma praga”, alertou William Nygaard, editor que sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1993, quando foi baleado por um atirador desconhecido diante de sua casa em Oslo depois que publicou “Os Versos Satânicos” na Noruega.

Cartunistas de todo o mundo expressaram sua tristeza pelas vítimas de quarta-feira. “Não consigo dormir esta noite, os pensamentos estão com os meus colegas cartunistas franceses, suas famílias e entes queridos”, escreveu David Pope, cartunista político do jornal australiano The Canberra Times, no Twitter.

Reportagem adicional de Alister Doyle, Erik Kirschbaum, Stephen Addison e Jason Szep

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