30 de Dezembro de 2015 / às 19:14 / em 2 anos

ESTREIA-“Kuma–A Segunda Esposa” aborda conflitos da cultura islâmica

SÃO PAULO (Reuters) - O casamento em um vilarejo no interior da Turquia marca a própria temática da produção austríaca que abre “Kuma – A Segunda Esposa”, que inaugurou a seção Panorama do Festival de Berlim de 2012.

A alegria da população local pelo enlace da jovem Ayse (Begüm Akkaya) com Hasan (Murathan Muslu), o bonito rapaz que mora com a família na Áustria, contrasta com as expressões de alguns parentes do noivo. A razão, o espectador descobre logo depois, quando todos voltam a Viena: a moça é na realidade a

“kuma”, uma segunda mulher, como indica o subtítulo dado no Brasil, de seu pretenso sogro, Mustafa (Vedat Erincin).

Na realidade, a ideia foi da primeira esposa, Fatma (Nihal G. Koldas), que visando apenas o “bem” da sua família recrutou alguém para cuidar de suas crianças e do marido quando ela partir, já que enfrenta o tratamento de um grave câncer.

Pelo menos, este é o plano inicial dela, mas não é preciso imaginar muito para saber que o desenrolar será diferente e a rejeição inicial de parte de seus filhos à situação é um indicativo. Contudo, o cineasta estreante Umut Dag apresenta uma bem-vinda habilidade de jogar com as expectativas do público, que, mesmo manipulado, poderá ter algumas surpresas.

Filho de imigrantes curdos, nascido na Áustria, o diretor e argumentista do longa –o roteiro é de Petra Ladinigg– traz à tona os embates ocorridos dentro da comunidade islâmica, de um modo geral, transformando a família de imigrantes em alegoria de todos os agentes dessas divergências de pensamento.

O choque de gerações, com seus ideais mais retrógados ou modernos, intensifica-se quando algum dos familiares se revela mais sujeito à influência do mundo ocidental, enquanto outros se mostram ainda presos aos costumes da tradicional e afastada vila turca.

Deste conflito, surgem temas ainda tabus dentro das culturas orientais, como a violência doméstica e a homossexualidade, por exemplo, sendo jogados para “debaixo do tapete” durante as discussões entre os membros da própria família.

No entanto, o papel das mulheres, subjugadas pelos preceitos religiosos e sociais da comunidade, serve como força motriz da obra.

Há um tom melodramático na trama, até novelesco, que não se torna prejudicial ao longa pela eficiente narrativa adotada por Dag, em uma produção simples, especialmente em termos técnicos.

Se o uso irrestrito do “fade in black”, aquela tela preta para separar algumas sequências, não é efetivo muitas vezes, tendo seu melhor momento ao suceder a operação da matriarca, a abordagem sem maniqueísmo dos personagens garante a honestidade na tela.

Outro componente da força do filme é seu vigoroso elenco, em particular de Begüm Akkaya, com a timidez e resiliência de sua protagonista, e de Nihal G. Koldas –que será vista em breve no indicado ao Globo de Ouro “Cinco Graças” (2015)–, na contenção de sentimentos expressada em sutilezas da grande líder do clã, que eclodirá mais à frente.

Por último, está a presença marcante do apartamento na história. O cenário doméstico em destaque serve como representação do aprisionamento do indivíduo, em especial das mulheres, dentro da estrutura familiar nesta cultura. Ao mesmo tempo, simboliza o espaço violado para a quebra da privacidade desta família, representante de várias, não só turcas ou islâmicas, que escondem muitos segredos por trás das aparências.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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