6 de Janeiro de 2016 / às 18:35 / em 2 anos

ESTREIA–Faroeste “Os Oito Odiados” recria tensões raciais pós-Guerra Civil nos EUA

SÃO PAULO (Reuters) - Antes de mais nada, “Os Oito Odiados”, oitavo filme dirigido por Quentin Tarantino, é uma revisita a tudo o que o inquieto diretor fez e também a suas referências. Ele mostra, assim, que não procura adentrar novo território e sim afinar suas ferramentas narrativas.

Tarantino, em Hollywood 5/1/2016 REUTERS/Mario Anzuoni

Em mais de um sentido, Tarantino olha para o passado. Sua história aqui se passa no século 19, num Wyoming coberto por uma densa neve, pouco depois do fim da Guerra Civil americana. O gênero, que ele revisita uma segunda vez depois de “Django Livre” (2012), é o faroeste, sempre com um foco firme tanto na questão racial norte-americana como nos faroestes espaguete de Sergio Leone.

E, como sempre, se está no terreno em que Tarantino se sente mais à vontade, sua peculiar mistura de exasperação, excessos, humor negro, violência e provocações aos postulados politicamente corretos.

Tudo isso e um pouco mais define o enredo do novo filme, que os brasileiros não o verão no formato em que foi originalmente filmado, o velho 70 mm – isto porque não foi possível, no país, resgatar dos antigos projetores em funcionamento. Assim, o filme será visto por aqui em scope digital.

Muitos rostos na tela são de velhos conhecidos de outros filmes do diretor, caso de Samuel Jackson, Kurt Russell, Michael Madsen, Walton Goggins e Tim Roth, além de outros novatos em sua filmografia, como Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh, única personagem feminina de peso no núcleo principal.

Jennifer interpreta a prisioneira Daisy Domergue, assassina confessa e condenada, sendo levada para execução por um implacável caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russell).

Conhecido como “Carrasco”, o único princípio que parece capaz de seguir é entregar seus prisioneiros vivos, já que sua integridade física pouco lhe importa.

A própria Daisy, que não é bem flor que se cheire, vive levando pancadas de seu captor.

Os dois são os únicos ocupantes de uma diligência, conduzida por um cocheiro, O.B. Jackson (James Parks), rumo à cidade de Red Rock, onde se dará o enforcamento da assassina. No meio do caminho, salta-lhes à frente um candidato a carona, o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) –um ex-militar da União, atualmente caçador de recompensas que, ao contrário de Ruth, prefere levar seus prisioneiros bem mortos.

A contragosto e por conta da neve infernal, Ruth acaba concordando em levar Warren –embora a desconfiança seja mútua e natural. Logo mais, outro passageiro se impõe: Chris Mannix (Walton Goggins), que sustenta ser o novo xerife a caminho de Red Rock.

O pequeno espaço da diligência fica atulhado destes tipos, de cuja sinceridade se pode sinceramente duvidar. E as coisas ficam ainda mais sinistras quando, por conta da nevasca, param no meio do caminho, no bar e hospedaria da Minnie (Dana Gourrier).

Para começar, a dona não está. Quem recebe os hóspedes é um mexicano, Bob (Demian Bichir), que se diz novo empregado da casa mas que nenhum dos fregueses habituais viu antes.

Além disso, outros três tipos estão ali dentro: o general Confederado Sandy Smithers (Bruce Dern), o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth) e Joe Gage (Michael Madsen), que escreve sem parar num caderno.

Como gosta de fazer desde sua estreia, em “Cães de Aluguel” (1992), Tarantino aposta na desconfiança máxima em relação ao que seus personagens dizem, jogando tudo numa tensão potencializada pela situação claustrofóbica deste bando de desconhecidos ilhados no meio do nada, cercados de neve grossa por todos os lados.

Embalado pela trilha do veterano compositor italiano Ennio Morricone, que colabora com ele pela primeira vez, o diretor estica ao máximo a expectativa da tragédia iminente. Como sempre, ele aposta muito nos diálogos provocativos, que vão delimitando o terreno dos duelos que se espera a qualquer momento que vão ser assumidos pelos muitos revólveres à disposição.

Os flashbacks, marca registrada do diretor, aqui são mais econômicos –mas, nem por isso, menos eficazes. O filme começa com uma abertura e, lá pela metade das quase três horas de duração, tem um capítulo intermediário que explica muito do que se viu antes e prepara o que vem depois. Neste jogo com o tempo e a expectativa, está o melhor de Tarantino. E, para quem prevê vingança e banhos de sangue, não perde por esperar.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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