January 18, 2017 / 6:16 PM / 2 years ago

ESTREIA–“Manchester à Beira-Mar” acentua o drama mas investe na sutileza

SÃO PAULO (Reuters) - Dentro de uma indústria tão altamente padronizada quanto Hollywood, todo ano há pelo menos um filme que sai da fórmula. Ou seja, que destoa das expectativas e das estruturas normalmente seguidas no gênero a que pertence.

Casey Affleck recebe premiação no Globo de Ouro. 8/1/2017. REUTERS/Mario Anzuoni

Este ano, este filme é o drama “Manchester à Beira-Mar”, em que especialmente o ator Casey Affleck parece estar-se tornando praticamente uma unanimidade nas premiações, começando pelo Globo de Ouro, o National Board of Review e associações de críticos de diversos Estados norte-americanos —além de ser considerado uma certeza no Oscar, cujos indicados serão conhecidos no próximo dia 24.

O filme é também a consagração de seu diretor e roteirista, Kenneth Lonergan —embora Lonergan esteja longe de ser um principiante ou um desconhecido.

Aos 54 anos, o novaiorquino já cravou pelo menos duas indicações ao Oscar como roteirista, por “Gangues de Nova York” (2003), de Martin Scorsese, e “Conte Comigo” (2000), que ele também dirigiu. Com as premiações que obteve com “Manchester à beira-mar” até aqui, também é tido como presença garantida na disputa da estatueta dourada pela terceira vez.

Ambientado numa cidade litorânea de Massachussets, perto de Boston, o drama se desenrola em torno de crises de identidade masculina, ancoradas no universo da família Chandler. Neste círculo, foi sempre muito forte a ligação entre os irmãos Joe (Kyle Chandler) e Lee (Casey Affleck), uma irmandade que incorpora também o filho de Joe, Patrick (quando menino, Ben O’Brien), especialmente porque a mãe do garoto, Elise (Gretchen Mol), é uma alcoólatra.

Há um corte no tempo e encontra-se Lee um pouco mais velho, trabalhando como zelador e faz-tudo para um conjunto de prédios em outra cidade. Ele é um solitário, que vive consertando os pequenos problemas dos condôminos, aparentemente sem ligações de amizade com ninguém. Parece um homem anestesiado contra sentimentos de qualquer espécie, num isolamento de que a grossa neve da paisagem parece funcionar como metáfora.

Um telefonema, avisando-o da morte do irmão, tira-o desta apatia funcional. E Lee parte de volta para Manchester, de encontro a fantasmas formidáveis, de que o filme só dará conta dentro de algum tempo.

A maneira como se oculta, temporariamente, a razão dos traumas de Lee, que motivaram sua partida da cidade, é um dos recursos usados pelo diretor para administrar as emoções de sua história, que ele pretende sutilmente revelados, sem transbordamento —até para manter um equilíbrio, já que estas emoções são de intensidade considerável.

A opção de Lonergan é manter as dores de Lee represadas, como ele escolheu. Por isso, a princípio, o espectador permanece intrigado pelo comportamento quase catatônico deste homem ainda jovem, até diante da morte do irmão —que, claramente, foi seu maior amigo e protetor, como revelam os flashbacks dos dois a bordo de um barco.

O testamento do irmão coloca um desafio para Lee, já que este o designou como guardião de seu filho, Patrick (agora interpretado por Lucas Hedges), ainda menor, uma função que o obrigaria a voltar para Manchester. Ou levar o garoto embora com ele para outro lugar, ao que o rapaz resiste asperamente, criando um conflito aparentemente insolúvel.

Na outra ponta deste mundo masculino, duas figuras femininas se destacam: Elise, a mãe de Patrick, que deixou a bebida para tornar-se uma protestante devota, a partir de um novo casamento, com Jeffrey (Matthew Broderick); e Randi (Michelle Williams), a ex-mulher de Lee, com quem ele divide a imensa, irresolvível dor que atormenta seus dias.

Em poucas cenas, Michelle Williams ocupa uma porção significativa deste centro emocional do filme, já que é simplesmente a única pessoa com quem Lee compartilha uma parte de seu imenso fardo de culpa —e há pelo menos um diálogo entre os dois, depois de um encontro casual na rua, que é de uma emocionalidade devastadora, sem deixar de ser delicada.

Nada, aliás, em “Manchester à beira-mar” é derramado ou excessivo —basta a realidade da tragédia na vida de Lee e Randi. É aí que Lonergan exerce sua afinação de dramaturgo que também é, desfiando com sutileza o impasse de seu protagonista, sem visar sua redenção.

Foi por isso, portanto, que o filme chamou tanta atenção, por lidar com o drama esgueirando-se dos excessos melodramáticos. Não é pequena façanha, quando se conhecem os exageros da média da produção dramática “mainstream” de Hollywood, viciada em extrair lágrimas aos baldes em situações escancaradas, reiterações e trilha sonora sempre no máximo volume.

Nada disso acontece neste filme, o que não quer dizer que ele seja perfeito ou mesmo que represente a rigor uma inovação. Na verdade, “Manchester à beira-mar” é um filme correto, bem-realizado e sutil.

Apenas aconteceu que Lonergan nadou contra a corrente e se deu bem. Nem escândalos extrafilme, como as acusações de assédio de duas mulheres contra Casey Affleck —resolvidas em acordos extrajudiciais confidenciais— conseguiram empanar o brilho do desempenho do filme até aqui.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below