March 8, 2017 / 7:08 PM / 2 years ago

ESTREIA–“Personal Shopper” é crônica fantasmagórica sobre a sociedade de consumo

SÃO PAULO (Reuters) - Existe, é óbvio, mais de uma maneira de se ler “Personal Shopper”, uma espécie de filme-extravagância do francês Olivier Assayas, ganhador do prêmio de direção, no Festival de Cannes do ano passado —dividido com o romeno Cristian Mungiu, por “Bacalauréat”.

(Da esquerda para direita) Nora Von Waldstatten, Olivier Assayas, Kristen Stewart e Sigrid Bouaziz 17/05/2016 REUTERS/Regis Duvignau

A primeira, e mais gritante, é como um filme sobrenatural que não chega a ser um terror —embora para alguns possa ser um horror— mas está tudo lá: ectoplasma, personagem atormentada e afins. Outra maneira de ver o filme é como uma fantasmagoria sobre o prazer na sociedade do consumismo conspícuo —não à toa, a profissão da protagonista dá título ao filme.

Kristen Stewart interpreta Maureen, uma jovem norte-americana morando em Paris pouco depois da morte de seu irmão gêmeo, decorrente de um problema cardíaco. Ela também é portadora dessa mesma condição, e poderá morrer de forma inesperada em breve, ou viver até chegar à velhice.

É um mistério, assim como a capacidade mediúnica da personagem. Ela e seu irmão, Lewis, fizeram um pacto no qual quem morresse primeiro faria um contato com o outro. Então, ela o aguarda.

Enquanto isso, Maureen trabalha para uma supermodelo, Kyra (Nora von Waldstätten), para quem vai buscar roupas, acessórios e joias caras. Quando o apartamento da chefe está vazio —o que acontece muito, já que a mulher vive num tour constante pelo circuito da moda europeia—, a protagonista aproveita para assaltar a geladeira e experimentar as peças que não está autorizada a usar.

Um dia, no entanto, encontra Ingo (Lars Eidinger), o namorado de Kyra, que revela ter sido dispensado, e acaba travando com ele um diálogo significativo.

Assayas começa seu filme como uma crônica do mundo contemporâneo dividido entre aparência e essência. Maureen compra, mas não é para ela. Maureen se comunica, mas raramente com alguém que está à sua frente. Quase nunca vê Kyra, e conversa por skype com um amigo que está no Oriente Médio. Seu único laço de amizade mais forte e sincero é com a namorada do irmão (Sigrid Bouaziz). Fantasmas e mais fantasmas a cercam.

E as fantasmagorias se multiplicam quando a personagem começa a receber estranhas mensagens em seu celular, vindas de um número desconhecido. Seria Lewis? Seria alguém vivo ou morto?

Maureen visita constantemente a casa onde seu irmão viveu pela última vez. Um casal de amigos quer comprá-la, mas antes quer certificar-se de que não há nenhum fantasma ali.

Seria a protagonista a quinta caça-fantasmas? Possivelmente, dada sua habilidade não apenas de entrar em contato com espíritos como também de os confortar, se necessário. Nesse momento, Assayas dá uma guinada no realismo quase cirúrgico do filme e se deixa levar por uma fantasia às vezes exagerada.

A primeira troca de mensagens se dá em um trem rumo a Londres, em 2 de novembro —um dia depois do Dia de Finados, o que torna o filme e a correspondência entre Maureen e o desconhecido (vivo ou morto, tanto faz) ainda mais sombrios.

De volta a Paris, essa pessoa incita a personagem a cometer pequenas transgressões prazerosas. Numa delas, ela veste um caro vestido que acabou de trazer para Kyra, enquanto a trilha sonora toca uma canção folclórica vienense dizendo que a morte não faz diferença entre ricos e pobres —o que transforma a cena numa espécie de vingancinha de classe fashion.

É impossível imaginar outra atriz que não Kristen no papel. Ela trabalhou com Assayas em “Acima das Nuvens” (que lhe rendeu o César de melhor coadjuvante, tornando-a a primeira norte-americana a ganhar o prêmio), num papel não muito diferente, como a assistente de uma atriz.

Aqui, a jovem veste uma máscara de sobriedade ao mesmo tempo que tormentas consomem sua mente —enquanto ela se transforma no verdadeiro fantasma que assombra o filme. E a atriz é tão fascinante que é impossível tirar os olhos dela até quando está digitando no celular.

Vaiado na sessão para a imprensa em Cannes, “Personal Shopper” é mais do que um longa experimental, é um experimento —transita entre gêneros sem fazer alarde, vai de filme de fantasma a suspense, passando por uma crônica da contemporaneidade, onde todos são, ao mesmo tempo, espectros e mercadorias sob a égide do consumo, não necessariamente de bens materiais.

A busca pelo contato com Lewis, o uso das roupas e apartamento de Kyra, um misterioso convite para um quarto de hotel —compensações simbólicas incapazes de aplacar o vazio existencial ou transformar as feições indecifráveis de Maureen.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below