March 8, 2017 / 7:44 PM / 2 years ago

ESTREIA–Em “Silêncio”, Martin Scorsese radiografa crise de fé e choque cultural

SÃO PAULO (Reuters) - Martin Scorsese levou quase 30 anos para realizar o sonho de filmar “Silêncio”, uma alentada adaptação do livro do autor japonês Shusaku Endo que lida com temas caros ao diretor, um ex-seminarista, como fé, ambiguidade e autoquestionamento.

Ator Andrew Garfield 05/01/2017 REUTERS/Jonathan Alcorn

Ambientada no século 17, a história gira em torno de três jesuítas portugueses no Japão: Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield), Francisco Garpe (Adam Driver) e o Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Os dois primeiros partem para o Japão em 1640, anos depois de ter sido proibida a entrada de padres católicos no país.

Naquele momento, a prática da religião cristã havia sido proibida e os desobedientes, submetidos a torturas e mesmo à morte.

Rodrigues e Garpe vão em busca do padre Ferreira, que foi seu mestre e de quem não se tem notícias seguras há anos. Boatos dão conta de que ele renunciou à fé, no que não acreditam seus jovens discípulos. Eles entram clandestinamente no Japão, contando com a ajuda de Kichijiro (Yosuke Kubozuka), um cristão relutante diante da fé.

Ambíguo e atuando como uma espécie de Judas, Kichijiro funciona como um pêndulo que faz oscilar o eixo moral de uma história profundamente espiritual, centrada especialmente na crise íntima de Rodrigues —que, diante dos tormentos impostos aos cristãos locais será ele mesmo pressionado para que abra mão de sua fé para salvá-los.

A fotografia do mexicano Rodrigo Prieto —indicada ao Oscar 2017— traduz com perfeição a miséria das condições de vida dos pescadores e camponeses japoneses que constituem a maioria dos fieis clandestinos.

Não escapa da reflexão afiada do diretor, que assina o roteiro com Jay Cocks, o choque cultural entre europeus portugueses e orientais —que talvez se tornasse ainda mais nítido se fosse falado ao menos um pouco de português, em nome do realismo da história original (detalhe que certamente pode chamar mais a atenção de plateias falantes da língua, como a brasileira).

Se o núcleo central da trama é o conflito interior de Rodrigues com o que ele sente como “o silêncio de Deus” diante de tanto sofrimento de seus seguidores perseguidos, o filme salienta um outro aspecto: a ferocidade da repressão, personificada pelo inquisidor Inoue (Issei Ogata), que procura não somente a rejeição da fé pelos padres, como sua constante sujeição.

A violência, então, não é somente física, mas moral, no enfrentamento entre culturas e religiões diante da tentativa de penetração de um elemento novo ou estrangeiro.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below