May 10, 2017 / 7:12 PM / in 2 years

ESTREIA–“A Promessa” ambienta melodrama no centro do massacre aos armênios de 1915

SÃO PAULO (Reuters) - O cineasta irlandês Terry George sabe manejar um drama e identificar-se com temas sociais relevantes. Construiu sua carreira em torno de filmes como “Hotel Ruanda” (por cujo roteiro foi indicado ao Oscar em 2005) e “Mães em Luta” (1996), além de outra indicação ao Oscar como corroteirista de “Em nome do pai” (1993), de Jim Sheridan.

Diretor Terry George e atriz Charlotte Le Bon concedem entrevista coletiva sobre o drama "A Promessa" 12/09/2016 REUTERS/Fred Thornhill

Assim, não é nenhuma surpresa vê-lo à frente da direção e roteiro (dividindo créditos com a norte-americana Robin Swicord) no drama “A Promessa”, uma coprodução entre Espanha e EUA, com um elenco internacional, focalizando o massacre dos armênios pelos turcos em 1915 —que se estima ter sido o primeiro genocídio do novo século e uma espécie de “modelo” que os nazistas imporiam depois aos judeus.

A história é personalizada num melodrama a partir de uma família, os Boghosian, embalado por um triângulo amoroso temperado por problemas éticos, com três personagens fortes: o farmacêutico e estudante de medicina Mikael Boghosian (Oscar Isaac), a professora de dança Ana Khesarian (Charlotte Le Bon) e o jornalista norte-americano Chris Myers (Christian Bale).

Os três se conhecem em Istambul, onde Mikael, rapaz do interior, veio morar com um tio comerciante, Mesrob (Igal Naor) e sua família. A bela e emancipada Ana, que viveu em Paris, ensina dança às pequenas primas de Mikael e surge uma atração entre os dois. Mas há obstáculos sérios: Ana vive com o jornalista Chris e Mikael está preso a uma promessa de casamento, cujo dote, inclusive, é o que financia seus estudos.

Se os três atores enchem a tela com seu conflito amoroso, nem por isso Terry George descuida do contexto assustador em que suas histórias se desenvolvem. No início da I Guerra Mundial, os armênios —cristãos, ao contrário dos turcos, de maioria muçulmana— começam a ser presos, mortos, enviados ao deserto, despojados de seus bens.

E são particularmente boas as cenas de deslocamentos de massas de populações, lembrando a saga dos refugiados atuais.

A trama se estrutura no sentido não só de exasperar a tensão entre o trio —lembrando o compromisso de Mikael com a noiva Maral (Angela Sarafyan)— como de criar situações de perigo envolvendo todos eles, especialmente pelo desespero de Mikael para reencontrar os pais e o envolvimento do repórter para denunciar o massacre ao mundo.

Há nessa caracterização dos dois homens, especialmente, uma certa contaminação de clichês que contribuem para atenuar a qualidade dramática do filme, embora seja inegável a importância do tema que resgata —basta lembrar que até hoje a Turquia ainda não admite este genocídio, que se estima ter colhido a vida de 1,5 milhão de armênios.

Mais interessante é a personagem de Ana, por seu caráter ousado e pela fluidez com que ela se mostra capaz de atravessar diversas situações. Já a mãe de Mikael, Marta (Shoreh Aghdashloo) é outra a ser engolida pelo clichê.

Talvez tenha faltado a George um envolvimento mais de dentro, o que ele, como irlandês, foi inegavelmente capaz de atingir mais fundo nos dramas “Mães em luta” e “Em nome do pai”.

De todo modo, é visível que o filme teve a força de incomodar os negacionistas do genocídio armênio, tornando-se alvo de “trolls” e uma incomum enxurrada de “dislikes” ao seu trailer na internet. Nada de se estranhar.

Quando, em 2002, o cineasta egípcio canadense de origem armênia Atom Egoyan lançou seu filme sobre o tema, “Ararat”, chegou a receber ameaças por parte de ultranacionalistas turcos. Por conta disso, o filme deixou de ser exibido em vários cinemas daquele país onde estava programado.

Neste sentido, “A Promessa” cumpre um imprescindível papel: não deixar arrefecer a memória daqueles fatos, recolocando-os em discussão.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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