October 17, 2017 / 4:49 PM / a year ago

Jovem de favela carioca transforma rua em palco com apresentações em violino remendado

Por Maria Clara Pestre

Paulo Maurício Dias posa para foto segurando seu violino ao lado da estátua de Michael Jackson na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro 08/10/2017 REUTERS/Bruno Kelly

RIO DE JANEIRO, 17 Out (Reuters) - Com um violino remendado, composto por peças de instrumentos quebrados, um jovem da comunidade carioca Santa Marta encanta multidões e profissionais da música com um repertório que vai de Vivaldi e Bach a trilhas sonoras de novelas e filmes populares.

Paulo Maurício Dias, de 24 anos, começou a tocar violino aos 9 anos em um projeto social da favela na zona sul do Rio de Janeiro, e logo fez das ruas seu palco.

“Eu gosto dos sentimentos que as músicas passam e de como as pessoas reagem com elas”, diz o músico, que começou a tocar na rua para pagar por aulas particulares de violino e ajudar nas despesas de casa.

Em uma dessas apresentações, Paulo Maurício foi percebido por Maria Bourgeois, presidente da ONG Comitê pela Vida e que decidiu ajudá-lo a ingressar na tradicional Escola de Música Villa-Lobos, onde o jovem ganhou uma bolsa de estudos integral.

“A calma dele tocando músicas maravilhosas no meio da rua assim, sozinho. Eu achei um deslumbramento... Ninguém parava, só jogava o dinheiro no chão. Eu falei: ‘eu vou mudar esse negócio’”, conta Maria.

Hoje, Paulo chega à escola às 8h30 —com um violino novo a tira colo— para estudar teoria musical, vocal e outros instrumentos.

“Na rua eu aprendi muito com muitas pessoas, mas não são informações exatas, são experiências próprias... Aqui é uma coisa que vai me dar uma visão melhor do que eu estou fazendo. Não é só o sentimento, é o raciocínio”, diz.

Desde o primeiro momento na escola, Paulo impressionou os professores. “Quando ele empunhou o violino e tocou, ele justamente puxou da manga um repertório que não faz parte da vida da comunidade. Ele puxou rapsódia de Brahms, puxou rapsódia de Paganini, ele puxou repertório de violinistas de grande envergadura”, afirma a professora Fernanda Canaud, que recebeu o violinista em seu primeiro dia na Villa-Lobos.

Morador da favela Santa Marta, uma das muitas comunidades cariocas marcadas pela violência e a criminalidade, Paulo Maurício reconhece que sua vida poderia ter tomado outro rumo se não fosse pela música.

“Imagina você ver todo mundo com tênis legal, com blusa legal, todo mundo com dinheiro... Que garoto de 15 anos, que não tem sorte na vida, não iria querer topar ganhar muito dinheiro e ter as garotas mais bonitas? Acho que se não fosse a música, acho que eu teria aceitado”, diz.

Para o futuro, Paulo sonha em trabalhar com cinema e ajudar aqueles que começaram como ele. “(Sonho) lá na frente poder ter uma orquestra com a galera da minha comunidade. Ensinar a galera que realmente precisa de uma oportunidade”.

Reportagem adicional de Sérgio Queiroz

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