29 de Julho de 2015 / às 18:59 / em 2 anos

ESTREIA-Godard abusa do 3D em seu primeiro longa no formato, "Adeus à Linguagem"

SÃO PAULO (Reuters) - É preciso respeitar o nome e a bagagem de Jean-Luc Godard, do contrário, seu mais novo filme, “Adeus à Linguagem”, pode ser visto como um mero exercício de ego – como se seus filmes mais recentes estivessem um tanto longe disso.

Cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard participa de um evento em Zurique, na Suíça. 30/11/2010 REUTERS/Christian Hartmann

Rodado e exibido exclusivamente em 3D, esse não é um longa muito recomendado para fracos, nem míopes ou astigmatas. Em suas experiências, o cineasta franco-suíço sobrepõe imagens, em níveis de profundidade diferentes (umas estão em terceira dimensão, outras não), entre outras coisas.

Esse é o segundo trabalho do diretor no formato. Dois anos atrás, ele participou de “3x3D”, coletânea de um trio de curtas, dirigidos também por Peter Greenaway e Edgar Pêra.

Ninguém espera coerência narrativa num filme de Godard – especialmente os mais recentes –, mas a sinopse oficial relata algo como a relação entre uma mulher casada, um homem solteiro, e o cachorro que se torna mediador entre eles.

Na verdade, não é bem isso, mas poderia ser. Josette (Héloise Godet) e Gédéon (Kamel Abdeli) parecem viver uma relação conturbada – o verbo ‘parecer’ é importante aqui, pois nada é muito certeiro no filme.

Eles conversam – muito, como é de praxe –, falam da vida e do mundo. A expressão verbal pode ser a chave de compreensão dessas pessoas, e também do filme. Mas Godard tem uma teoria – na verdade, várias, mas aqui uma sobressai: no vaso sanitário somos todos iguais. Não há rico ou pobre, homem ou mulher etc. Todos somos reduzidos a movimentos peristálticos.

Não é lá uma ideia muito original ou agradável, mas vamos dar crédito, Godard pode ter algo a dizer além disso. Em pouco menos de 70 minutos de cinecolagem levemente aleatória, experimenta-se uma viagem vertiginosa de signos, símbolos e significados.

“Adeus à Linguagem”, em seu leve anacronismo verborrágico, tenta fazer desconstruções. O cineasta fala do amor em tempos de mercantilização de sentimentos e emoções de forma digital.

Fala também da utopia – um assunto recorrente em sua obra –, além das necessidades fisiológicas. Enfim, é um filme sobre tudo e sobre nada, na medida em que se esvazia em seu avanço.

Exibido em Cannes no ano passado, o filme ganhou o Prêmio do Júri, dividido com “Mommy”, de Xavier Dolan, um fato que deixou a fanbase de Godard um tanto irritada. Curiosamente, foi o primeiro troféu que o cineasta ganhou na história do festival – tendo competido outras seis vezes na seleção principal, a partir de “Salve-se Quem Puder” (80).

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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