19 de Agosto de 2015 / às 20:14 / em 2 anos

ESTREIA-Riscos da busca pela beleza norteiam comédia “Linda de Morrer”, com Glória Pires

SÃO PAULO (Reuters) - Não bastasse todo o reconhecimento obtido em seus mais de 40 anos de carreira na televisão, o sucesso de bilheteria de “Se Eu Fosse Você” (2009) é mais uma garantia de que a volta de Glória Pires à comédia no cinema em “Linda de Morrer” (2015), após um hiato dela no gênero de quase seis anos, deverá ser um sucesso comercial.

Cena do filme "Linda de Morrer", com Glória Pires. REUTERS/Divulgação

O quanto o marketing da Globo Filmes poderá alavancar este desempenho já é difícil de prever, mas é certo que, mesmo com a falta de apuro técnico ou espírito inovador, o longa de Cris D’Amato tem comicidade e charme suficientes para cair nas graças do público.

Na história, a atriz vive a renomada Dra. Paula Lins, dermatologista que descobre a cura para a celulite e, no entanto, morre pelos efeitos colaterais do seu remédio, chamado “Milagra”, antes do lançamento da tão esperada pílula. Para evitar a comercialização do medicamento, ela precisa da ajuda do psicólogo Daniel (Emílio Dantas).

Ele reluta em aceitar o dom da mediunidade herdado de sua avó, a mãe de santo Lina (Susana Vieira), mas é a única chance da falecida médica se comunicar com sua filha Alice (Antonia Morais), com quem ela tinha uma relação difícil, ou com seu antigo braço direito na clínica estética, o cirurgião plástico Francis (Ângelo Paes Leme).

Quem já viu filmes semelhantes na temática, “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990) e “E Se Fosse Verdade...” (2005), por exemplo, vai encontrar certas repetições, sem o mesmo brilho.

O roteiro de Carolina Castro e Marcelo Saback – este, uma figurinha carimbada na autoria das mais recentes comédias nacionais protagonizadas por mulheres – oscila entre bons momentos, como na ótima cena do programa de TV de Gilda Bayão (Stella Miranda), com a apresentadora alterada pelo Milagra dizendo algumas verdades ao convidado (George Sauma), e a recorrência a lugares-comuns para algumas gags, a exemplo da sequência em que a encarnação de uma alma feminina por um homem descamba para os trejeitos estereotipados de um gay.

Quanto à direção, pode-se dizer que Cris D’Amato já esteve em situações melhores. Se o suspense “Sem Controle” (2007) apontava um futuro promissor e o trabalho em conjunto com Daniel Filho na releitura “Século XXI” de “Confissões de Adolescente” (2014) se apresentou interessante e dinâmico, ela fez o básico em “S.O.S. Mulheres ao Mar” (2014), uma das maiores bilheterias do ano passado, e agora em “Linda de Morrer” (2015).

A diferença é que, em seu longa anterior, a diretora conseguiu utilizar bem o transatlântico como cenário, tanto quanto as paisagens italianas que contavam ao seu favor; enquanto, no mais recente, a cenografia que se assemelha a de alguns programas de TV pesa negativamente.

Contudo, Cris usa o que tem de melhor em mãos: seu elenco, que apesar de alguns exageros, é carismático. Com uma personagem diferente do que está habituada, Susana Vieira dá o seu inconfundível toque pessoal, que funciona bem aqui. Mesmo que, em alguns momentos iniciais, possa estar no piloto automático, Glória faz sua protagonista engrenar no passar das cenas, aproveitando e muito a chance de atuar junto da filha Antonia.

E, mesmo que soe levemente piegas, é na relação entre mãe e filha, apresentada sem nenhuma figura paterna, nem ausente para justificar qualquer coisa, nas lições sobre as consequências da busca pela beleza a qualquer custo e na valorização feminina que o filme se diferencia de boa parte das comédias nacionais dos últimos anos.

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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