21 de Outubro de 2015 / às 18:24 / em 2 anos

ESTREIA-"Ponte dos Espiões" revisita Guerra Fria para falar do mundo atual

SÃO PAULO (Reuters) - Voltando à direção depois de três anos (o último trabalho nesta função foi “Lincoln”, 2012), Steven Spielberg mergulha numa história com molho de sobra tanto de espionagem quanto de discussão moral e ética em “Ponte dos Espiões”. Mais uma vez, parte de uma figura real, neste caso, do advogado James Donovan, encarnado por um dos atores favoritos do diretor, Tom Hanks.

Ator Tom Hanks participa de evento em Nova York, nos Estados Unidos. 02/03/2015 REUTERS/Lucas Jackson

Foi o dramaturgo britânico Matt Charman quem apresentou a Spielberg a história deste homem extraordinário, que protagonizou uma das mais espetaculares trocas de prisioneiros entre os EUA e o bloco comunista, envolvendo a então URSS e a Alemanha Oriental.

Grande fã de espionagem, o diretor enxergou no enredo uma ótima oportunidade não só de reciclar os fatos num filme de época, mas especialmente de usá-los para comentar o presente sob outro ângulo.

Sem dúvida, o roteiro assinado por Charman e os irmãos Ethan e Joel Coen oferece a Spielberg a oportunidade de compor um filme bem mais envolvente do que “Lincoln”, que, apesar de suas qualidades e dos méritos inegáveis do ator Daniel Day-Lewis (que com ele venceu seu terceiro Oscar), ressentia-se de uma certa rigidez, talvez por se tratar de figura revestida de enorme sacralidade patriótica.

Donovan, por sua vez, é um homem comum, um pai de família, um advogado 100 por cento ético, obcecado por seguir as leis e ser honesto, mesmo quando seu próprio país espera que ele não o faça. Ou seja, um personagem feito sob medida para o bom e velho Tom Hanks.

A história decola em 1957, auge da Guerra Fria entre as superpotências EUA e URSS. O FBI espiona e finalmente prende um suposto espião pró-soviético, Rudolf Abel (Mark Rylance). As autoridades americanas querem que o seu julgamento transcorra sob a mais límpida aparência de legalidade. Por isso, convoca-se o prestigiado advogado Donovan como defensor do réu.

Naquele momento, Donovan dedicava-se a seguros e resiste a entrar neste campo minado da política. É convencido, no entanto, de sua missão patriótica e decide fazer seu trabalho direito. Começa por questionar os próprios fundamentos da prisão de Abel, que não seguiu todos os trâmites devidos.

Por fazer o que se espera de um defensor na autodenominada maior democracia do mundo, Donovan torna-se, tanto quanto seu cliente, alvo de campanha difamatória e de caça às bruxas. Aparentemente, ele é o único que acha que, neste caso como em qualquer outro, o advogado deve fazer o máximo para proteger seu cliente, independente de suas filiações ideológicas.

A opinião pública e o próprio aparato judicial não esperavam por isso e sim que ele apenas fizesse de conta. Donovan não é desse naipe.

Parte do filme dedica-se, assim, ao drama de tribunal, bastante envolvente e com evidentes ligações com situações contemporâneas – os prisioneiros de Guantánamo vêm à mente em mais de uma ocasião.

O filme desafia o maniqueísmo, dando a Abel oportunidades de se afirmar bem mais do que se esperaria de um mero coadjuvante, invocando respeito, ainda que não necessariamente concordância. Mas, como sustenta Donovan, não é a conduta isenta perante os adversários que faz o mundo ocidental sentir-se moralmente superior ao outro lado?

Num outro momento, “Ponte dos Espiões” faz jus ao título e lança o advogado numa jogada mais arriscada, envolvendo justamente a troca do prisioneiro Abel por um jovem piloto americano, Francis Gary Powers (Austin Stowell), capturado quando espionava instalações soviéticas.

Mais uma vez, o relutante Donovan é convencido de outra missão patriótica. E novamente ele não obedece inteiramente ao protocolo. O agente da CIA que o acompanha, Hoffman (Scott Shepherd), insiste em que ele atue exclusivamente para resgatar Powers.

Mas o advogado fica sabendo que um jovem estudante americano, Frederic L. Pryor (Will Rogers), foi preso pelos alemães-orientais naqueles primeiros dias da instalação do Muro de Berlim, em 1961. E quer salvá-lo também, ainda que, a rigor, isto coloque toda a operação de troca em risco.

É fácil enxergar o quanto são oportunos os vários temas contidos no filme, em torno de um personagem que permite a discussão do próprio conceito de heroísmo.

Esse advogado que respeita mais a lei do que a conveniência pessoal e que acredita em levar princípios até o fim – e se mostra capaz de reconhecer qualidades no “inimigo” – é um símbolo da civilização que se afirma sobre a barbárie. Senão, como ele acredita, nos tornamos todos bárbaros.

Há muito o que dizer sobre esta história, mas é disto que Spielberg quer falar, e o faz com uma nitidez cristalina.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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