21 de Setembro de 2016 / às 19:52 / em um ano

ESTREIA–Pioneiro matemático indiano é personagem do drama “O Homem que Viu o Infinito”

SÃO PAULO (Reuters) - O matemático autodidata indiano Srinivasa Ramanujan (1887-1920) é o foco da cativante cinebiografia “O Homem que Viu o Infinito”, em que o diretor britânico Matt Brown lança-se ao desafio de concretizar minimamente raciocínios muito abstratos.

Ator Dev Patel durante entrevista em Toronto. 11/9/2016. REUTERS/Fred Thornhill

Também autor do roteiro, Brown acerta ao focar seu filme num retrato sensível das dificuldades de adequação de Ramanujan (Dev Patel), um gênio intuitivo, a um tempo e um espaço ainda despreparados para compreendê-lo. Assim, observa-se com interesse os esforços do jovem pobre para sobreviver em Madras, sul da Índia.

Órfão de pai, sem dinheiro nem educação formal, ele luta para sustentar mãe e esposa (Devika Bhise). Não o ajuda muito sua obsessão permanente por fórmulas matemáticas que lhe chegam à mente naturalmente, como uma revelação divina – o que, aliás, ele acredita que seja o caso. “Deus fala comigo”, ele diz.

Conseguindo, a duras penas, um emprego num escritório – até por sua habilidade com as contas -, ele inicia uma correspondência que mudará sua vida, com um professor do renomado Trinity College, de Cambridge, G.H. Hardy (Jeremy Irons).

Com o professor, ele compartilha algumas de suas teses, surpreendendo Hardy ao ponto de intrigá-lo, pois sabe que se trata de uma pessoa simples do interior da Índia. Hardy decide, então, convidá-lo a vir para Trinity.

O choque cultural do jovem no ambiente elitista da escola inglesa é tratado com eficiência pelo filme. Ramanujan, que nunca deixara seu povoado indiano, é confrontado com toda espécie de hostilidade, do clima frio à alimentação pesada (ele é vegetariano), passando pela necessidade de usar sapatos, o que ele desconhece (só calçava sandálias). Pior que isso é a atitude francamente racista e desdenhosa da maioria dos professores de Trinity, que não veem com bons olhos a presença do camponês indiano sem diplomas entre eles.

O enredo tira bom proveito do contraste entre o próprio Ramanujan, místico e apaixonado pela intuição, e seu protetor Hardy, racionalista e ateu, empenhado em convencer o rapaz de que ele precisa assimilar procedimentos acadêmicos formais para poder comprovar a profusão de teorias que assaltam sua mente brilhante.

Nem todos são inimigos do novato, no entanto. Hardy tem no amigo e colega John Littlewood (Toby Jones) um aliado irônico e sagaz e mais aberto a relações pessoais do que o reservado Hardy. Num meio acadêmico altamente competitivo e conservador, também desperta como simpatizante deste pequeno núcleo independente o rebelde Bertrand Russell (Jeremy Northam). Mas é fato que são minoria.

Tal como fez em filmes anteriores, como “Quem quer ser um milionário” e “O exótico Hotel Marigold”, o protagonista Dev Patel não economiza energia para encarnar seu original personagem – embora aqui esteja ligeiramente mais contido em sua tendência para o overacting. Essa contenção contribui para que o filme não perca o foco.

Não exagerando no jargão matemático, “O Homem que Viu o Infinito” ressalta o preconceito de uma época contra o pioneirismo de um outsider, cujas teorias, quase um século depois de sua morte, vêm sendo não só comprovadas como aplicadas no desenvolvimento de computadores, na economia e no estudo dos buracos negros.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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