8 de Fevereiro de 2008 / às 01:09 / em 10 anos

ENTREVISTA-Carlinhos Brown quer criar a Timbalada "eletrônica"

Por Raquel Stenzel

SALVADOR (Reuters) - O inquieto músico baiano Carlinhos Brown, criador da Timbalada e um dos compositores mais tocados do Carnaval da Bahia, quer levar o som eletrônico para as ruas de Salvador pelas mãos dos próprios percussionistas timbaleiros.

A música eletrônica já está incorporada à folia baiana, onde há pelo menos três anos DJs internacionais têm levado as batidas secas aos circuitos de Salvador. Mas o que Brown pretende é algo distinto.

“Eu vou trabalhar nos próximos anos para fazer a Timbalada na rua eletrônica, mas não é com DJ, é com tambor na mão”, disse Brown em entrevista à Reuters, após encerrar o Carnaval de Salvador com a passagem de seu Arrastão, que arrebanha os últimos foliões no circuito da orla marítima na manhã de Quarta-feira de Cinzas.

“Chegou a hora do percussionista eletrônico”, disse o músico, que avalia que a Bahia está aberta para essa novidade. “Porque já chegou ao alcance da simplicidade e porque nós podemos alcançar o som que queremos”, justificou.

Dizendo-se “prontíssimo” para a empreitada musical, Brown espera que as grandes produtoras de instrumentos musicais -- como a Roland e a Yamaha -- comecem a investir na criação de instrumentos de batucada eletrônicos.

“Nós temos tambores extremamente pesados que poderiam ser eletrônicos”, disse, acrescentando que esses instrumentos abririam possibilidades sonoras impossíveis com os similares acústicos.

“Isso vai dar uma diversidade maravilhosa ao Carnaval, mas claro sem matar jamais a forma acústica”, afirmou Brown, 45 anos.

A Timbalada, com mais de dez álbuns gravados, é um dos projetos mais conhecidos de Brown. O grupo, formado em 1991 e hoje com 19 percussionistas e cantores, começou como um projeto social no bairro carente do Candeal, onde Brown nasceu.

“EXPERIMENTALISTA”

Brown também gostaria de gravar algum disco este ano. “Música é o que não falta. Eu agora estou pintando quadro com gravador do lado. Sai um quadro e 20 músicas”, afirmou.

Conhecido pela criatividade, refletida em suas músicas, atitudes e vestimentas -- durante todo o Carnaval não abandonou os óculos escuros e o cocar de cacique -- Brown disse que cabe a ele e aos novos compositores apenas tentar reinventar o que já existe.

“O Brasil já está feito no conceito cultural... as canções estão no inconsciente coletivo. Nós somos mais experimentalistas.”

Além de levar a sua música e seus tambores para as avenidas de Salvador durante o Carnaval, Brown tem sido uma pessoa importante na condução da folia baiana, ora criticando o apartheid entre foliões de blocos e a chamada pipoca, ora garantindo espaço para os artistas com menos apelo comercial.

Para o Carnaval de 2009 ele já elegeu a sua bandeira de luta: quer restringir o tempo de parada dos trios em frente aos camarotes para garantir que todos tenham oportunidade de exposição à mídia.

“No Carnaval do ano que vem, o que mais esperamos (os artistas) é uma disciplina em relação à parada no camarote”, disse, sugerindo que cada artista possa cantar apenas uma ou no máximo duas músicas em cada camarote. Desta forma, o tempo de exposição das atrações nas transmissões ao vivo das redes de televisão seria mais equilibrado.

“Isso é uma mudança importantíssima.”

Durante este Carnaval, alguns trios chegaram a ficar quase uma hora parados em frente a camarotes, enquanto os outros esperavam para seguir caminho. “É chato, cansa o cordeiro que é um funcionário nosso, cansa as pessoas, cansa todo mundo”, disse Brown, ressaltando que não era uma crítica, mas uma “evolução”.

O prefeito de Salvador, João Henrique (PMDB), também anunciou durante este Carnaval que serão feitos estudos sobre a viabilidade de ampliação do circuito Barra/Ondina, na orla marítima, para que os trios chegassem até o bairro do Rio Vermelho.

“Não concordo”, disse Brown, que este ano foi o curador da tradicional festa de 2 de Fevereiro no Rio Vermelho, em homenagem a Iemanjá, rainha das águas no candomblé.

Para ele, o bairro tem que ser preservado como espaço de divulgação de músicos e bandas que não têm oportunidade de montar um trio e para a festa religiosa.

“Deixa o trio elétrico onde está”, pediu.

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