15 de Julho de 2008 / às 00:28 / 9 anos atrás

ENTREVISTA-Padilha filma violência da fome em novo documentário

Por Fernanda Ezabella

<p>Foto de divulga&ccedil;&atilde;o do novo document&aacute;rio de Jos&eacute; Padilha, 'Garapa', que fala sobre a fome e a mis&eacute;ria em tr&ecirc;s fam&iacute;lias brasileiras. O filme deve estrear em setembro. Photo by $Byline$</p>

SÃO PAULO (Reuters) - Esqueça as favelas do Rio de Janeiro, os tiroteios e as cenas de tortura. O novo filme de José Padilha, o documentário em preto-e-branco “Garapa”, fala de um outro tipo de violência que o capitão Nascimento não tem como combater -- a fome e a miséria.

O diretor vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim seguiu por 30 dias a rotina de três famílias cearenses em situação de “insegurança alimentar grave”, um problema que atinge mais de 10 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Padilha quer mostrar como a fome se manifesta do ponto de vista pessoal das famílias, dando vida a números e estatísticas, para aproximar o espectador de cinema da experiência direta do que é conviver com a miséria.

“Quis fazer um filme o mais simples possível, com o mínimo de alegorias e de informações que fossem além da história daquelas famílias”, disse Padilha à Reuters.

“Filmei como se fosse um documentário sendo feito em 1930. Com lente fixa, não filmei com zoom, em preto-e-branco, não tem música, é todo com câmera na mão”, disse.

“Acho que dá a idéia, para quem está olhando, de que ‘ah, estou vendo um troço em preto-e-branco, deve ter sido muito antigamente’. E aí o cara olha e vê que é hoje.”

A vontade de filmar “Garapa”, nome dado às misturas de água e açúcar que as crianças tomam na falta de leite, surgiu com o lançamento do Programa Bolsa Família, há quatro anos. Hoje, são quase 50 milhões de pessoas atendidas, com repasses de benefícios básicos de cerca de 60 reais para famílias de renda de até 60 reais.

Das famílias que Padilha filmou, apenas duas recebem dinheiro do programa, enquanto a terceira não tem documentos para se registrar. Uma família tem duas filhas e está na região urbana de Fortaleza; outra tem 12 filhos e mora perto de uma cidade da zona rural do Estado, e a última tem três filhos e vive no “meio do nada”, no interior.

Como em seus filmes anteriores, o longa de ficção “Tropa Elite” e o documentário “Ônibus 174”, Padilha mais uma vez traz um tema que promete incendiar debates, tanto sobre a fome e a abrangência do Bolsa Família, como também o próprio processo de fazer cinema.

PRÓXIMA PARADA: VALE-TUDO, TERROR E POLITICAGEM

Padilha viajou ao Ceará com uma equipe de três pessoas -- produção, técnico de som e fotógrafo -- e filmou o dia-a-dia de famílias miseráveis, que não tinham da onde tirar o que comer. A posição do cineasta, nesta hora, balança.

“Durante as filmagens, você não pode interferir... Você tem que, como cineasta e os técnicos que estão lá, se propor a aguentar conviver com uma situação dramática... E isso é duro para quem está filmando”, disse. “Mas, comparado à realidade das famílias, o problema do cineasta que está filmando é desprezível, risível.”

Padilha afirmou que após as filmagens fez “um monte de coisa” que não podia durante o processo para ajudar as famílias, mas evitou falar do assunto durante a entrevista, para evitar que o foco do filme recaísse sobre ele. Toda a renda obtida com o longa será revertida para as três famílias.

“O importante é saber que existem famílias nessa situação, para mobilizar as pessoas a tentar acabar com a fome”, disse. “E se eu deixar esse filme virar um debate sobre mim, sobre o que eu fiz ou deixei de fazer, é contraproducente no debate sobre a fome.”

Mais um documentário do diretor nascido no Rio de Janeiro deve ficar pronto até o final deste ano. Feito em parceria com a BBC e o canal franco-alemão Arte, o filme discorre sobre as polêmicas pesquisas de antropólogos estrangeiros com índios ianomâmis no Alto Orinoco, no final dos anos 1960.

Depois, ele tem três projetos em andamento para filmes de ficção, incluindo um com a Warner Bros. sobre uma investigação de financiamento de terrorismo na Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina). O roteiro ainda está sendo trabalhado.

Os outros dois projetos são um filme com roteiro de Bráulio Mantovani (roteirista de “Cidade de Deus”) sobre lutas de vale-tudo pelo mundo e outro sobre o processo de financiamento de campanhas políticas no Brasil, com roteiro do antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos autores do livro que inspirou “Tropa de Elite”.

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