15 de Maio de 2008 / às 02:28 / 10 anos atrás

ENTREVISTA-Nachtergaele leva misticismo da Amazônia a Cannes

Por Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - Matheus Nachtergaele não tem religião, mas acredita em milagre. Foi assim que o ator embarcou para Barcelos, a 400 km de Manaus, para rodar seu primeiro filme como diretor, “A Festa da Menina Morta”, no qual cria uma religião a partir de um ritual misterioso.

“A Festa”, que contou com apoio do governo do Amazonas, foi selecionado para a prestigiosa sessão Un Certain Regard, do Festival de Cinema de Cannes, que começa nesta quarta-feira.

Entre bezendeiras, pajés, padres, pais-de-santo, evangélicos e batistas, um novo grupo religioso é formado na pequena comunidade ribeirinha de Barcelos, a partir de um milagre, que é o aparecimento de um vestido rasgado de uma menina desaparecida.

“Eu tive esse desejo concreto e acho que a gente conseguiu, de alguma forma e sem ser um filme de antropologia, fazer de a ‘Menina Morta’ um amálgama das nossas religiões”, disse Nachtergaele à Reuters por telefone.

“Tem traços catolizantes, traços da pajelança indígena, traços do candomblé, do espiritismo”, disse. “É o pai-nosso dito em tupi.”

Na frente desta nova religião está Santinho, interpretado por Daniel de Oliveira (ator de “Cazuza”). O rapaz encontra o vestidinho da menina após o suicídio de sua mãe e faz de sua casa um santuário para tal relíquia.

O filme se passa em dois dias, um para a preparação da festa da menina morta e outro para a festa-ritual propriamente dita, ápice da história, o qual o diretor faz suspense. As pessoas rezam em frente ao vestido, e acredita-se que Santinho receba a menina morta.

“O meu espanto diante do fato de a gente morrer permeia o filme todo, e também a minha comoção pelo fato de a gente conseguir dar sentido à vida”, disse o diretor paulista de 39 anos, que assina o roteiro ao lado de Hilton Lacerda (roteirista de “Baixio das Bestas”).

A idéia inicial para “A Festa da Menina Morta” surgiu em 1999, quando Nachtergaele filmava “O Auto da Compadecida” em Cabaceiras, interior da Paraíba.

Em um dia de folga, o ator presenciou uma cerimônia religiosa na casa de uma família, que oferecia seu terreno para a celebração do milagre de sua filha, que havia desaparecido, mas “enviado” seu vestido após muitas preces e peregrinações.

“Isso me deixou muito perturbado, no melhor dos sentidos. De repente, estava diante da capacidade infinita que o homem tem em criar fé para tentar dar algum sentido às dores da vida”, disse o diretor. “Acho que o tamanho de uma fé me parece exatamente proporcional ao pavor da morte.”

FÉ BRASILEIRA

Nachtergaele passou a visitar Manaus e Barcelos todos os anos desde 2003, após descobrir que ali na Amazônia seria o lugar perfeito para sua história. Ele descobriu a pequena comunidade ao filmar “Eclipse”, filme de um diretor austríaco que permanece inédito no Brasil.

“Barcelos é um lugar pequeno, isolado e ali você consegue distinguir com muita clareza as religiões que formam o imaginário da fé brasileira”, disse o diretor, que passou cinco semanas na cidade filmando e um mês produzindo em 2007.

“Tem muito índio lá ainda ... índios de várias etnias, com seus filhos e netos, morando em cidades, com mercado, telefone, com banco, contas para pagar, que assistem a novelas, dançam forró, hip hop.”

O diretor fez questão de chamar atores e atrizes da região para atuar ao lado de nomes reconhecidos como Cássia Kiss e Dira Paes. Realizou quatro workshops na capital, e escalou Ednelza Sahdo, “considerada a Fernanda Montenegro de Manaus”.

“O Brasil já se retrata com muito talento como carioca, como paulista, como gaúcho, como baiano, nordestino. Mas acho que a gente ainda não se retrata bem como amazônico”, afirmou.

“Acho que a Amazônia ainda é para o nosso cinema um lugar bem distante, bom para documentários e filme de aventura. Acho que é bem mais que isso.”

Nachtergaele embarca no final de semana para Cannes, onde o filme será exibido dia 21. Esta será sua primeira vez no festival, embora tenha uma longa carreira como ator de filmes.

Entre ter a idéia do roteiro e o começo das filmagens, oito anos se passaram, além de dezenas de filmes, novelas e minisséries da Globo, como “América”, “Da Cor do Pecado” e “Queridos Amigos”. Entre os filmes, atuou em “Árido Movie” (2004), “Tapete Vermelho” (2005) e “Baixio das Bestas” (2007).

Nachtergaele, que começou sua carreira como ator de teatro, pretende seguir com outros projetos como diretor, mas sem deixar a atuação de lado.

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