27 de Fevereiro de 2008 / às 19:04 / em 10 anos

ENTREVISTA-Esculturas de Tomie Ohtake celebram migração japonesa

Por Fernanda Ezabella

<p>A artista Tomie Ohtake mostra a maquete de sua escultura para a cidade de Santos, que ir&aacute; celebrar os 100 anos do centen&aacute;rio da imigra&ccedil;&atilde;o japonesa no Brasil. Photo by Paulo Whitaker</p>

SÃO PAULO (Reuters) - A artista Tomie Ohtake está quase sempre vestida de preto, diz que prefere vermelho para suas esculturas ao ar livre e que achou Santos amarela demais quando aqui chegou, vinda de Kyoto, há mais de 70 anos.

As cores parecem guiar a vida desta nipo-brasileira de 94 anos, que virou informalmente a artista das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil.

Tomie ficou famosa nos anos 1960 pelas pinturas e gravuras de formas abstratas e técnicas inovadoras. Hoje, reconhecida internacionalmente, tem obras públicas espalhadas pelo país, como painéis coloridos em metrôs e esculturas em parques e teatros.

Em sua casa-ateliê na zona sul de São Paulo, repleta de obras e peças de design, Tomie explica que prefere que o público interprete seus trabalhos, geralmente sem nome.

“Tem que começar pelo o que a pessoa sente, senão perde a pureza. É mais importante do que eu falar da obra”, disse a artista à Reuters.

Ao lado de pinturas inacabadas, Tomie exibe as maquetes de duas esculturas projetadas para Santos e Guarulhos, no aeroporto internacional de Cumbica, como parte do centenário.

Ambas são vermelhas e têm formas abstratas. A de Santos terá 15 metros de altura e 20 metros de largura, com inauguração prevista para junho.

“É em aço (a obra) e vai se encaminhando para cima e em direção do mar”, disse a artista.

Simpática, ela pede ao fotógrafo que acompanha a reportagem para pegar as maquetes em uma mesa e para abrir envelopes para mostrar os projetos. Reclama da idade, das falhas da memória e se desculpa mais de uma vez pelo português.

A escultura de Guarulhos, na forma de um círculo e com 9 metros de altura, ainda depende de patrocínio.

Nos 80 anos da imigração japonesa, Tomie também criou uma escultura pública em São Paulo, que pode ser vista até hoje no canteiro central da avenida 23 de Maio.

Além das obras para o centenário, Tomie também vai assinar os cenários e figurinos da ópera “Madame Butterfly”, no Teatro Municipal de São Paulo, como fez na década de 1980 para o Municipal do Rio. A história conta o trágico romance de uma jovem gueixa com um capitão da marinha norte-americana, no Japão do final do século 19.

“Não gosto dessa coisa de árvore de cerejeira, ponte, água passando. É tudo abstrato, nem cadeira tem”, disse Tomie sobre os cenários, mostrando em um livro as fotos da ópera no Rio.

Para a nova montagem em junho, Tomie pretende manter a mesma idéia, com o cenário do primeiro ato em vermelho, e o segundo, em amarelo. Na cena do casamento dos protagonistas, os convidados estão de preto, e a noiva de branco.

CULTURAS DISTINTAS

Tomie lembra então de seu próprio casamento, com o engenheiro agrônomo Ushio Ohtake, feito em estilo ocidental pouco tempo depois de aportar em Santos, aos 22 anos.

“Não teve nada de tradição oriental. E eu tive que mandar fotos para minha mãe no Japão, para mostrar que tinha casado mesmo”, disse Tomie, abrindo um sorriso.

O casal teve dois filhos, ambos arquitetos famosos, Ricardo e Ruy Ohtake, responsável pela moderna casa no Campo Belo onde a artista mora há quase 40 anos. Esculturas e telas de artistas japoneses e brasileiros integram os espaços.

A pintora também cita a luz forte amarela que pairava no porto de Santos quando ela chegou e disse que brincou muito durante os 45 dias de viagem de navio. “Dava para ler livros, conversar com as pessoas também.”

A artista, mais nova de seis irmãos e a única mulher, veio ao Brasil para visitar um irmão e passar apenas uma temporada. Acabou ficando por causa das guerras em que o Japão entrou.

“Tinha curiosidade em ver como meu irmão estava no Brasil, não queria voltar, mas quando estorou a guerra, chorei”, disse Tomie, que foi morar no bairro paulistano da Mooca.

Tomie voltou pela primeira vez ao Japão em 1951, para ver sua mãe doente. Há dez anos não visita o país, apesar de ter mantido a frequência de uma viagem a cada quatro anos.

“A minha chegada e os anos iniciais foram de uma certa inadaptação pela grande diferença cultural existente entre Japão e Brasil”, disse Tomie, por email, antes de conceder a entrevista em sua casa. “Logo em seguida, essas diferenças foram esquecidas, significando a adaptação.”

Considerada a dama da artes plásticas, Tomie começou a carreira artística aos 40 anos, “quando a cultura brasileira já fazia parte da minha formação”, explicou.

A partir daí vieram participações na Bienal de São Paulo e exposições na Itália, Japão, Estados Unidos. Suas obras estão entre as mais valiosas de artistas brasileiros vivos.

“Minha absorção dos elementos da cultura brasileira foi um processo lento e que não terminou até hoje”, disse Tomie.

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