27 de Março de 2008 / às 00:28 / em 10 anos

Srur faz arte no rio Tietê e alerta para degradação da cidade

Por Fernanda Ezabella

<p>Giant plastic bottles are seen on the bank of the Tiete river in downtown Sao Paulo March 26, 2008. The art installation was created by Eduardo Srur to urge people not to pollute rivers with recycled material. Photo by Paulo Whitaker</p>

SÃO PAULO (Reuters) - Talvez você nunca tenha ouvido falar em Eduardo Srur, mas se mora em São Paulo já deve ter se deparado -- não sem surpresa -- com alguma de suas obras inusitadas, instaladas em espaços públicos da cidade.

O artista, que em 2004 colocou, sem autorização, uma âncora no barco do Monumento às Bandeiras, inaugura nesta quarta-feira seu trabalho mais recente e impactante, formado por 20 esculturas de garrafas de 10 metros, espalhadas em 1,5 km das margens do rio Tietê, da ponte do Limão à da Casa Verde.

Outros projetos inéditos de Srur prometem chamar a atenção dos paulistanos, incluindo uma intervenção no Masp e a instalação de salva-vidas em 15 monumentos públicos, como a estátua de Borba Gato, na zona sul da cidade.

As esculturas infláveis do Tietê, que serão iluminadas por dentro das 18h às 21h até fim de maio, imitam as garrafas de plástico conhecidas como “pet” e que são facilmente detectadas no meio dos lixos e resíduos da superfície do rio.

Srur (www.eduardosrur.com.br) passou 15 meses visitando as margens do Tietê para realizar esta nova intervenção, um desdobramento de sua obra no rio Pinheiros de 2006, quando levou para as águas poluídas 100 caiaques e 150 manequins.

“Resolvi dar continuidade a essa questão da poluição dos rios da nossa cidade, da falta de consciência da população”, disse o artista à Reuters, ao lado de uma garrafa gigante.

“A cidade nasceu e se desenvolveu em função do rio Tietê. E a gente recompensou matando o rio”, disse. “São espaços urbanos óbvios, só que ninguém vê.”

As obras foram feitas de PVC e trama de nylon e são sustentadas cada uma por uma plataforma de 2.000 garrafas pet de dois litros, que farão as esculturas boiarem no caso do nível das águas do rio subir com as chuvas.

As garrafas serão protegidas por uma equipe de segurança 24 horas por dia, para impedir danos e furtos de material, como já aconteceu durante os testes, quando levaram cabos elétricos.

No final da mostra, as esculturas vão passar por um processo de higienização e serão transformadas em 2.000 mochilas, a serem doadas. Já as garrafas pet voltarão às cooperativas.

“Pets”, nome do trabalho, faz parte de uma exposição do Itaú Cultural, “Quase Líquido”, que propõe um diálogo entre os dilemas do mundo atual e a consistência gelatinosa do rio. Outros artistas que participam são Zezão, famoso pelos grafites nos esgotos da cidade, Tatiana Ferraz e Artur Lescher.

BORBA GATO DE SALVA-VIDAS

Foi pela pintura que Srur virou artista, nos anos 1990. Formado pela Faap, chamou a atenção pelas intervenções urbanas, as quais acredita serem mais democráticas.

“Você faz uma ocupação no espaço cotidiano das pessoas, elas não precisam ir até o museu, elas recebem informação antes disso”, acredita Srur.

Em 2004, fez um vídeo no qual aparece explodindo bolsas de tinta em outdoores da cidade, em atos de vandalismo que foram sendo substituídos por ações artísticas mais lúdicas.

“Acampamento dos Anjos”, feito com barracas de camping iluminadas, talvez seja seu trabalho mais conhecido -- percorreu três Estados (Santa Catarina, Paraná e São Paulo) e três países (Cuba, França e Suíça). Em São Paulo, 35 barracas iluminaram a fachada do esqueleto de um prédio abandonado havia 10 anos, na avenida Dr. Arnaldo.

No segundo semestre, Srur fará “Sobrevivências”, levando coletes salva-vidas para personagens históricos nacionais representados em esculturas públicas.

A estátua de 15 metros de Borba Gato, importante bandeirante do século 17, receberá um colete de cinco metros de altura. Os monumentos a Duque de Caxias e do Ipiranga também estão na lista de Srur, que propõe um resgate do patrimônio histórico e também um alerta ao aquecimento global.

“As minhas obras são lúdicas, para atrair o olhar, mas elas estão sempre carregando uma ironia, para gerar uma reflexão ou alguma questão para provocar o público”, disse.

Já o projeto para o Masp, que pretende cobrir o vão livre do prédio com 2.000 escoras de madeira, não tem previsão de acontecer, apesar de Srur afirmar que tem até autorização do presidente Julio Neves. O problema é a falta patrocínio.

“É como se o museu estivesse vindo a baixo e passando por uma reforma arquitetônica e conceitual”, explica. “É um projeto grande, precisa da verba.”

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