19 de Maio de 2009 / às 16:21 / 9 anos atrás

Tradição do cinema realista continua forte em Cannes

Por James Mackenzie

<p>Diretor iraniano Bahman Ghobadi no 62o Cannes. 15/05/2009. REUTERS/Eric Gaillard</p>

CANNES (Reuters) - Um jovem ensina música a um grupo de crianças iranianas, um garoto aborígine na Austrália central cheira cola, um grupo de soldados entediados passa o tempo fumando até a chegada de um ônibus repleto de prisioneiros que serão fuzilados.

Ao lado do glamour do tapete vermelho e dos experimentos vanguardistas, o cinema de realismo social ocupa um lugar especial no Festival de Cinema de Cannes desde que o clássico neo-realista “Roma - Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini, foi exibido em 1946.

Este ano, vários filmes levam a tradição adiante e lançam um olhar implacável sobre o mundo contemporâneo.

“No one Knows about Persian Cats”, do diretor iraniano Bahman Ghobadi, é um dos filmes mais comentados da sessão Um Certo Olhar.

Descrito como “documentário-ficção”, o filme mostra o cenário da música underground para ilustrar algumas das restrições mais amplas da sociedade iraniana contemporânea.

“O movimento musical é uma coisa enorme, e, ao mesmo tempo, a música é proibida no Irã, especialmente o canto de mulheres”, disse Ghobadi à Reuters.

“Gosto de música e gosto de música underground. Por isso fiz o filme. Eu quis fazer um retrato do que vem acontecendo na música.”

Ghobadi pode correr o risco de ser encarcerado por apresentar o filme, mas ele fez pouco caso das preocupações sobre como podem reagir as autoridades de seu país.

“Cheguei a um estágio em que não me preocupo com nada. Nada realmente me importa, exceto o que estou fazendo, por isso nada me impede de levar minha carreira adiante”, disse ele.

Mesmo quando a prisão não é um risco, tratar de questões sociais delicadas impõe uma responsabilidade especial ao cineasta, acredita o diretor australiano Warwick Thornton, que está expondo “Samson and Delilah” em Cannes.

“Quando escrevi o roteiro, eu não pus nele nada que não tivesse visto em minha própria vida -- que tivesse testemunhado ou que tivesse sido feito a mim”, disse.

O filme destaca o estado desesperador de muitas comunidade aborígines, onde cheirar cola, alcoolismo e violência são comuns, embora o filme termine em tom mais otimista.

“Ninguém pode discutir comigo sobre escrever sobre esse lugar, porque eu o vi pessoalmente”, disse Thornton. “Quando se trabalha com sua própria comunidade, é preciso ser forte.”

Entre os filmes que tratam de questões sociais, “The Petition,” sobre abusos cometidos por governos locais na China, será exibido mais tarde na semana.

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