19 de Agosto de 2010 / às 10:58 / em 7 anos

ESTREIA-"Um Doce Olhar" retrata a perda da inocência

SÃO PAULO (Reuters) - Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2010, o filme turco “Um Doce Olhar”, que estreia em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador, é a terceira e última parte de uma trilogia assinada pelo diretor Semih Kapanoglu.

<p>Ator Bora Altas participa de coletiva de imprensa para promover o filme "Um Doce Olhar" no Festival de Berlim. O filme estreia neste final de semana em circuito nacional. 16/02/2010 REUTERS/Thomas Peter</p>

O título original do filme, “Bal”, quer dizer “Mel”. Os outros dois longas são “Yumurta” (“Ovo”), de 2007, e “Sut”, (“Leite”), de 2008 -- ambos inéditos em circuito comercial no Brasil, mas exibidos em festivais, como a Mostra Internacional de São Paulo.

Cada um dos filmes retrata uma fase na vida de um mesmo personagem, Yusuf, o que não quer dizer que sejam, necessariamente, a mesma pessoa.

Em “Ovo” ele é um homem maduro, um poeta de pouco sucesso, dono de um sebo que volta à cidade natal para o funeral de sua mãe. Em “Leite”, está no final da adolescência, não consegue entrar numa universidade, sonha em escrever poesias, e não é aceito no serviço militar.

Cada filme pode ser visto de forma independente, pois se encerra em si mesmo. Mas, obviamente, a trilogia completa, um retrato às avessas de um homem, da maturidade à infância, traz mais camadas de compreensão sobre o personagem.

Em “Um Doce Olhar”, o pequeno Yusuf, de 6 anos, mora numa província cercada de montanhas no norte da Turquia. O pai, Yakup (Erdal Besikcioglu), é apicultor, e a mãe, Zehra (Tulin Ozen), plantadora de chá.

O menino é de poucas palavras, e, na escola, apresenta dificuldades de aprendizado. Um pedagogo ou psicólogo logo diagnosticaria uma dislexia. Talvez o problema seja apenas uma timidez excessiva. A dificuldade de aprendizagem, relacionamento e a gagueira podem não passar de uma consequência de sua ansiedade.

O pai, Yakup, é o vínculo mais forte para o menino. Juntos, eles saem em busca de lugares onde colocar colmeias para a produção do melhor mel.

A floresta é um lugar de encanto, mas também mistério. Nunca se sabe o que pode estar escondido no meio das árvores. E quando Yakup sai para uma viagem sozinho, Yusuf fica isolado em seu próprio mundo.

“Um Doce Olhar” é o filme sobre a perda da inocência, sobre a descoberta do mundo -- especialmente as decepções -- e como isso molda uma pessoa.

Yakup custa a voltar de sua viagem, talvez nunca volte, como indica a primeira cena. Ainda assim, o menino precisa sobreviver a essa ausência. Nesse estágio da infância, mãe e filho são amigos, mas um tanto distantes. Só mais tarde uma cumplicidade se estabelecerá entre os dois, vista no segundo filme, “Leite”.

Kaplanoglu é um diretor de filmes com planos longos e diálogos contidos, principalmente em “Um Doce Olhar”. Pouco se diz, mas muito acontece nos olhares, nas ações e reações de seus personagens. Há também pouca música em seus filmes, apenas nos momentos-chaves.

Neste último filme da trilogia, o diretor trabalha com uma fotografia mais escura, assinada por Baris Ozbicer, em seu primeiro trabalho com Kaplanoglu. A luz nas cenas de interiores, especialmente na casa da família de Yusuf, faz lembrar os quadros do pintor holandês Vermeer (1632-1675).

A beleza visual, a profundidade da narrativa e dos personagens, nada disso funcionaria se Kaplanoglu não tivesse um bom ator no papel de Yusuf.

E o pequeno Bora Altas é tão comovente quanto encantador. Seu personagem, com a curiosidade infantil para a qual tudo é novidade, está descobrindo a poesia que existe no mundo, apesar das contrariedades.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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