18 de Novembro de 2010 / às 09:55 / em 7 anos

ESTREIA-"A Vida Durante a Guerra" questiona o perdoar e esquecer

SÃO PAULO (Reuters) - O que vem depois de felicidade? Na linha do tempo de Todd Solondz é a guerra, ou melhor, “A Vida Durante a Guerra”, uma comédia melancólica e agridoce, na qual o diretor retoma os personagens de seu filme mais famoso, “Felicidade”.

<p>Diretor Todd Solondz (centro) e as atrizes Shirley Henderson (esq) e Charlotte Rampling na exibi&ccedil;&atilde;o do filme "Vida Durante a Guerra" no Festival de Veneza em 2009. 03/09/2009. REUTERS/Tony Gentile /Arquivo</p>

O filme, que estreia no país nesta sexta-feira, é uma combinação de assuntos delicados, como pedofilia, terrorismo, conflitos raciais, tudo para perguntar se é possível perdoar e esquecer.

Ganhador do prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza do ano passado, “A Vida Durante a Guerra” começa numa cena idêntica a “Felicidade”. Joy - agora interpretada por Shirley Henderson - está num restaurante com seu namorado. Ele lhe dá um cinzeiro antigo que comprou no eBay, com o nome dela gravado - que significa “alegria”. A conclusão aqui, no entanto, é bastante diferente daquela do primeiro filme.

Todos os personagens, como é comum nos filmes de Solondz, são infelizes até a exaustão. A possibilidade de felicidade é efêmera.

A visão que o diretor tem dos Estados Unidos contemporâneo -- que se solidifica em filmes como “Benvindo à Casa de Bonecas” e “Palídromos” -- não é negativa ou desprovida de esperanças. É, na verdade, triste, cruel. Ataques terroristas são um assunto nas entrelinhas e, às vezes, explícitos nesse filme.

Mas Solondz olha esses acontecimentos como um catalisador para os americanos compreenderem a si mesmos e resolverem seus próprios problemas, antes de voltarem os olhos para territórios distantes de suas fronteiras. É mais ou menos isso que diz o pequeno Timmy (Dylan Riley Snyder), talvez o personagem mais sensato, embora condizentemente ingênuo para sua pouca idade.

Os personagens de “Felicidade” são interpretados por outros atores. Isso permite não apenas mostrar que envelheceram de forma diferente, como também ampliar o leque de possibilidades e interpretações para cada um.

As irmãs de Joy são Trish (Allison Janney) e Helen (Ally Sheedy). A primeira é mãe de Timmy, que diz para todos ser viúva, embora seu marido, Bill (Ciarán Hinds), cumpra pena por pedofilia. Ela tenta encontrar um novo companheiro, mas confessa que só se casará se os filhos o aprovarem.

Joy é casada com Allen (Michael K. Williams) que, com a ajuda dela, tenta se livrar de sua tara que envolve listas telefônicas e chamadas anônimas. Ela, por sua vez, recebe visitas constantes de Andy (Paul Reubens), um sujeito que ela dispensou num restaurante, há alguns anos. Para se separar temporariamente do marido, Joy viaja para a Flórida onde reencontra a mãe (Renée Taylor) e as irmãs.

A ansiedade dos Estados Unidos pós-11 de setembro, que o filme evoca, começa com o título e ecoa a caça às bruxas - de obras como “As Bruxas de Salem”.

A partir das explicações de sua mãe, Timmy vê um pedófilo em potencial em praticamente todos os homens que se aproximam. De pedófilo para terrorista, na cabeça de Timmy, parece não existir muita distância.

O mundo do diretor Solondz é habitado por gente estranha que declama frases esquisitas, mas, ao menos tempo - ou, talvez, por isso mesmo -, seja tão parecido com o nosso mundo. A questão do “perdoar e esquecer” ecoa.

Em “A Vida Durante a Guerra”, Solondz relembra o que há de melhor no cinema independente norte-americano, sem cair nos maneirismos que inundaram o gênero na última década. E, novamente, se mostra astuto na criação de diálogos e na observação que faz da família ocidental contemporânea. “Olho por olho… e então vem o perdão”, diz um personagem.

Um dos personagens diz para Timmy: “Você seria capaz de perdoar alguém que te bateu na cara? Um Terrorista? Hitler? Seu pai?”. O que ele tenta provar - e consegue - é que é impossível perdoar e esquecer. Um círculo vicioso se forma entre ações e reações. E “A Vida Durante a Guerra” nada mais é do que pessoas tentando perdoar e esquecer, se empenhando em uma tarefa quase inútil.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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