9 de Dezembro de 2010 / às 09:50 / em 7 anos

ESTREIA-Coppola investiga segredos e traições em "Tetro"

SÃO PAULO (Reuters) - Do alto de suas mais de sete décadas de vida - cinco delas dedicadas ao cinema -, o cineasta Francis Ford Coppola pode dar-se ao luxo de esbanjar dinheiro (não muito, diga-se de passagem) numa extravagância em preto-e-branco, filmada na Argentina, sobre famílias consumidas por inveja e segredos, que atende pelo nome de “Tetro”.

<p>Diretor Francis Ford Coppola (esq) e o ator Alden Ehrenreich, na estreia do filme "Tetro", em Los Angeles. 03/06/2010 REUTERS/Fred Prouser/Arquivo</p>

E, mesmo quando um filme do diretor de “Apocalypse Now” e “O Poderoso Chefão” não funciona de todo, ele o faz em grande estilo.

As invejas e intrigas em “Tetro”, que unem e separam dois irmãos, Tetro (Vincent Gallo) e Bennie (o estreante Alden Ehrenreich), seriam dignas de figurar em qualquer episódio da saga da família mafiosa italiana que Coppola contou entre 1972 e 1990.

No entanto, o novo filme está mais próximo da obra de Elia Kazan, particularmente do drama “Vidas amargas”, baseado no romance “A Leste do Éden”, de John Steinbeck.

Uma outra possibilidade, no entanto, ronda a vida real: Coppola, tal qual os dois personagens, é filho de um músico, Carmine, e também tem um irmão, August, pai do ator Nicolas Cage. Mas, ao contrário do enredo, o pai do cineasta só se tornou famoso quando musicou os filmes do filho.

Em “Tetro”, os dois irmãos vivem à sombra do pai, um maestro famoso, interpretado pelo ator austríaco Klaus Maria Brandauer. O mais velho, Tetro, foge de casa e se refugia na Argentina, onde trabalha como iluminador teatral. Rompendo os laços com a família, vive com a médica Miranda (Maribel Verdú) - parte amante latina, parte figura materna, cujo romance com o protagonista nasceu num lugar e momento estranhos.

Quando o irmão caçula, Bennie, chega sem avisar, ele parece transportado a outra dimensão. O fato de a maioria das pessoas falarem espanhol ao redor dos dois contribui para esse estranhamento.

Marinheiro, prestes a completar 17 anos, o rapaz vê no irmão mais velho uma espécie de modelo - se é para seguir ou repudiar é uma dúvida que persiste. Tetro é áspero com todo mundo - menos sua mulher - e, com o irmão, tem um comportamento oscilante.

Quando os flashbacks - em colorido contrastante com o preto e branco do presente - explodem na tela, muito do comportamento de Tetro começa a fazer sentido, embora não encontre necessariamente justificativas. Segredos são capazes de destruir famílias, arruinar pessoas, acabar com nações. Na família Tetrocini, mistérios do passado são como uma espada afiada pairando sobre a cabeça dos seus membros.

A resolução da trama, que pode ser um pouco frustrante, acontece num festival de artes no deserto da Patagônia. Envolve uma peça sobre a família Tetrocini e uma crítica chamada Alone, interpretada por Carmen Maura, que parece saída direto de um filme de Pedro Almodóvar. Mas, até chegar lá, Coppola constrói imagens com rigor visual - contribuição do fotógrafo Mihai Malaimare Jr. - e a encenação e desenvolvimento como uma ópera.

Este é o primeiro roteiro original escrito pelo diretor desde “A conversação” (1974) e, por isso, parece querer traçar tantos paralelos entre a ficção e a realidade. Tetro, descobre-se, é um gênio incompreendido, ou melhor, como diz sua mulher, um gênio que nunca conseguiu terminar uma obra. A peça que ele escreve em código há anos pode ser uma obra-prima. Mas o seu constante bloqueio criativo impede que finalize suas histórias.

Coppola podia estar sofrendo do mesmo mal de seu personagem quando concluiu o roteiro de “Tetro”. Ou o final talvez seja propositadamente imprevisível. De qualquer forma, agora que o diretor banca a si mesmo graças à sua vinícola - ao contrário da época em que seus filmes eram produzidos por grandes estúdios -, ele pode fazer o que bem entende em seus filmes. Consequentemente, ser mais experimental e audacioso.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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