13 de Janeiro de 2011 / às 16:08 / 7 anos atrás

ESTREIA-"O Mágico" resgata roteiro e espírito de Jacques Tati

SÃO PAULO (Reuters) - Jacques Tati (1907-1982) sempre foi o Charles Chaplin do cinema francês -- um humanista sensível, de sua própria e inimitável maneira, como se viu em tantos de seus filmes, como os deliciosos “Meu Tio” (1958) e “As Férias do Sr. Hulot” (1953).

Então, que bom que o diretor de animação Sylvain Chomet existe para ressuscitar, 18 anos depois da morte de Tati, um roteiro que ele escreveu e que compõe a espinha dorsal deste doce e delicado “O Mágico” -- uma animação retrô que está colecionando prêmios pelo mundo, como os do National Board of Review e o European Film Award, e concorre a outros, como o Globo de Ouro de melhor animação e o Bafta de melhor realização técnica.

Diretor do não menos delicioso “As Bicicletas de Belleville” (2003), Chomet apropria-se do roteiro de Tati com respeito quase total -- limitando-se a pequenas mudanças, como transferir o cenário de Praga para três outras cidades (Paris, Londres e Edimburgo) e trocar a galinha da história original por um impagável coelho de maus bofes, sempre disposto a morder dedos humanos.

No mais, é no mesmo início dos anos 1960 do original que transcorre a sina de um mágico decadente, cujos traços correspondem exatamente à figura alta e desengonçada do verdadeiro Jacques Tati.

O mágico sem nome corporifica a dignidade de uma profissão aperfeiçoada em toda a vida que vem perdendo público e ameaça não mais garantir sua sobrevivência. Um tema que sempre atravessou toda a obra de Tati.

Acreditando numa mudança de ares, o mágico atravessa o Canal da Mancha, trocando sua Paris por uma Londres em que não encontra maior sorte -- e, ainda por cima, enfrenta a concorrência de novíssimas atrações, como os roqueiros pintados à imagem e semelhança dos Beatles e Rolling Stones dos primeiros dias.

O encontro com um bêbado animado, vestindo uma kilt, anima o mágico a uma ida à Escócia. Numa pequena localidade, o mágico encontra a companheira de algumas novas jornadas, a garota Alice. Ao compadecer-se dos sapatos furados da menina, trocando-os por um novo par de calçados vermelhos, ele ganha sua devoção.

Sempre levando na bagagem o malcomportado coelho, os dois fixam endereço em Edimburgo, num hotel povoado por tipos circenses, como um ventríloco e três animados equilibristas, exercitando seus números atléticos pelas escadas.

Quase não há diálogos e nem é preciso, já que se aposta tudo na fluidez de uma narrativa que cria personagens vivos em cenários dinâmicos.

Uma beleza à parte da animação está na composição das cidades que retrata, com direito a delicados efeitos de luz e som capazes de recriar poeticamente a atmosfera urbana. Melancólico no espírito, “O Mágico” está na contramão de toda a animação moderna, sem dúvida. Mas não escapará aos espectadores atentos o quanto este modelo antiquado funciona, hipnotizando os olhos e os corações.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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