2 de Junho de 2011 / às 18:40 / em 6 anos

ESTREIA-Leandra Leal brilha no premiado "Estamos Juntos"

SÃO PAULO (Reuters) - “Estamos Juntos”, novo filme de Toni Venturi (“Cabra Cega”, “Rita Cadillac - A Lady do Povo”), pulsa com o batimento da cidade de São Paulo. Raramente a capital é vista com tanta propriedade e captada com tanta honestidade na tela como nesse premiado longa. Mais do que cenário para os dramas que exibe, São Paulo é personagem viva que respira e contracena com os atores.

A trama de “Estamos Juntos”, cujo roteiro é assinado por Hilton Lacerda, soa, num primeiro momento, como um drama hospitalar com tintas sociais - mas, nada mais distante disso. Na verdade, o que o filme encontra e explora é a intersecção entre o plano pessoal da protagonista (Leandra Leal) e o mundo que a cerca, ao qual ela sempre esteve alheia.

Carmen (Leandra Leal) é uma médica residente cujos planos começam a se materializar. Pequenos incidentes - como o assédio do chefe (Marat Descartes) - ganham a dimensão que merecem. Nisso, percebemos que a protagonista é centrada e segura de suas escolhas. A puxada de tapete vem quando ela é diagnosticada com uma doença séria.

Ao mesmo tempo, a convite de uma colega (Débora Duboc), ela começa a desenvolver um trabalho preventivo junto a um grupo de pessoas que moram num prédio ocupado no centro de São Paulo. Essa nova realidade é um choque para Carmen. Quando conhece Leonora (Dira Paes), a médica passa a encarar com outros olhos os movimentos sociais.

Desse cruzamento - a doença e o despertar de uma nova consciência - surge a transformação da protagonista. Tudo aquilo que até então ela dava como certo é posto em questionamento. Consequência disso, por exemplo, é a amizade com Murilo (Cauã Raymond), um rapaz que parece incapaz de enxergar além do próprio umbigo. Quando os dois disputam a atenção de um músico argentino (Nazareno Casero, de “Crônica de uma Fuga”), a amizade chega ao fim.

Essa briga entre Carmen e Murilo é um indício da visão equivocada que a moça tem do mundo e de seus relacionamentos - tanto os amorosos como as amizades. Ela corre perigo, mas a vida de uma pessoa é maior ou menor do que a vida e a segurança de todo o grupo dos sem-teto? À medida que a vida da protagonista se transforma, pouca coisa sobra de seu passado - talvez apenas o misterioso personagem vivido por Lee Taylor.

Desde o começo do projeto, Venturi parecia saber que precisaria de uma grande atriz, pois o filme se constrói em cima do arco de transformação de sua protagonista. Os elementos que entram em cena - doença, movimento dos sem-teto, perda das amizades - são sempre agregadores a essa mudança do modo de vida e de visão da personagem. O diretor não podia ter feito uma escolha mais feliz do que Leandra Leal.

Como acontece em todos os trabalhos da atriz, desde “A Ostra e o Vento” (1997), passando por “O Homem que Copiava” (2003) e o premiado “Nome Próprio” (2007), o que se vê na tela, além da entrega completa, é a compreensão dos dramas internos de Carmen - o que a transforma em mais do que uma personagem criada para existir apenas durante os 90 minutos do filme. Ela recebeu o prêmio de melhor atriz no o XV CinePE, no mês passado.

“Estamos Juntos” foi o grande vencedor daquele festival, levando sete prêmios, entre eles melhor filme, diretor e roteiro.

É com grande delicadeza que Venturi deixa o filme mergulhar no universo dessa personagem. Quando ela emerge de seu purgatório, o que reencontra, além de si mesma transformada, é a cidade que a cerca - na qual ela nunca prestou atenção. Diz um personagem que para se ver as estrelas em São Paulo é preciso olhar para baixo - as luzes são essas estrelas. Mas “Estamos Juntos” vai além: olha em todas as direções.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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