18 de Julho de 2011 / às 16:58 / em 6 anos

Arquivos do teatro Bolshoi revelam vidas de músicos

Por Anna Andrianova

MOSCOU (Reuters) - A morte de um tirano, um sequestro feito pela polícia secreta e insights sobre as mentes de alguns dos maiores compositores da história estão entre os detalhes que o teatro Bolshoi, da Rússia, descobriu nas margens de partituras seculares que fazem parte de seus arquivos.

As descobertas foram feitas durante o trabalho de digitalização dos arquivos musicais do Bolshoi, que estão entre os mais antigos e extensos do mundo e abrangem tesouros raros como um livro de canções italiano do século 15 contendo palavras manuscritas em latim.

Entre as partituras há também anotações e rabiscos escritos e desenhados por músicos comuns durante horas incontáveis passadas no fosso da orquestra ou nas salas de ensaio do teatro do século 18, proporcionando alguns toques de humor e realismo.

Escritas em letras cirílicas maiúsculas na parte de baixo de uma partitura estão as palavras “O Grande Stalin Morreu”, aludindo ao ditador soviético morto em 1953.

A palavra “Grande” foi riscada. Ninguém sabe se quem a deletou foi o autor original ou um dos músicos que usou a partitura mais tarde.

Até a queda da União Soviética, duas décadas atrás, o teatro foi palco de eventos e espetáculos oficiais, e é claro que os músicos tinham suas opiniões próprias sobre o clima político da época, disse a arquivista do Bolshoi Olesya Bobrik.

“Parece que vieram prender Tatiana”, escreveu um violinista durante os ensaios da ópera “Eugene Onegin”, de Tchaikovsky, em 1968, aludindo aos frequentes casos de desaparecimento de pessoas levadas pela polícia secreta do Kremlin para ser interrogadas.

Outra anotação, esta feita em 1940 na partitura de uma ópera do compositor Carl Maria von Weber, diz: “Hoje estava fazendo 8 graus e tocamos. Algumas pessoas ficaram com o nariz congelado.”

Bobrik disse que a natureza repetitiva do trabalho em orquestra, tocando as mesmas obras musicais inúmeras vezes, pode ser entediante, e às vezes os músicos se deixavam levar por seus pensamentos.

“Eles se entediam e procuram se distrair fazendo rabiscos, desenhos, mandando bilhetinhos uns para os outros”, disse ela.

O Bolshoi iniciou o projeto de digitalização de seus arquivos dois anos atrás e já completou cerca de 20 por cento do trabalho. Futuramente os resultados do trabalho serão disponibilizados online.

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