17 de Janeiro de 2013 / às 13:02 / 5 anos atrás

ESTREIA-Em "Django Livre", Quentin Tarantino cria um faroeste-espaguete

SÃO PAULO, 16 Jan (Reuters) - A piada começa no batismo do protagonista. Parece altamente improvável que um escravo negro na América do século 19 se chamasse “Django”, nome que batiza heróis dos faroestes-espaguete que, entre vários outros, foram ingredientes básicos da eclética formação do cineasta norte-americano Quentin Tarantino.

Cineasta norte-americano Quentin Tarantino é visto durante estréia alemã do filme "Django", em Berlim. A piada começa no batismo do protagonista. Parece altamente improvável que um escravo negro na América do século 19 se chamasse "Django", nome que batiza heróis dos faroestes-espaguete que, entre vários outros, foram ingredientes básicos da eclética formação de Tarantino. 08/01/2013 REUTERS/Tobias Schwarz

Nem pela alta dose de humor --sanguinolento, como é o seu estilo-- que pontua toda a trajetória do filme, “Django Livre” abandona por nenhum momento uma postura crítica à escravidão, pano de fundo de uma história que rendeu polêmicas com, por exemplo, o renomado diretor negro norte-americano Spike Lee, que afirmou que não verá o filme, pelo entendimento de que não trata o tema com o devido respeito.

Quem for assistir “Django Livre” de peito aberto verá que qualquer um pode até discordar dos exageros de Tarantino, mas não encontrará, a rigor, motivos para duvidar de sua ética.

O filme é o mais puro delírio tarantinesco, abordando a época da escravidão, no sul dos EUA, fazendo dela o cenário de mais uma fantasia de vingança dos oprimidos, como fez em com as mulheres (Uma Thurman) em “Kill Bill” e os judeus em “Bastardos Inglórios”.

Indicado a cinco Oscar, inclusive melhor filme, “Django Livre” se inscreve também no que parece, nas indicações da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood neste ano, uma procura de identidade dos EUA. No caso de “Django Livre”, e também de “Lincoln”, de Steven Spielberg --o campeão de indicações-- e até “Argo”, de Ben Affleck, olhando para o passado da nação.

A diferença é que Tarantino, fale do que fale em seus filmes, sempre optará pelo discurso do entretenimento, fartamente encharcado de ironia e humor negro. Assim, ele começa sua narrativa a partir do dr. King Schultz (Christoph Waltz, indicado ao Oscar de coadjuvante), dublê de dentista e na prática caçador de recompensas que cruza o caminho do escravo Django (Jamie Foxx).

Schultz quer comprar Django de seus novos donos, porque ele é um dos poucos a conhecer a fisionomia de um trio criminoso que tem sua cabeça a prêmio. A negociação pela compra vai mal e acaba com mortos e feridos pelo chão, mas também com alguns escravos libertos sem esperar.

Schultz e Django formam, então, a dupla que vai chocar as fazendas sulistas quando os seus proprietários racistas virem um negro não só vestido na maior estica, dentro de um figurino bastante colorido, como montado a cavalo, como homem livre.

Django mostra tanto seu valor como auxiliar do caçador de recompensas que Schultz topa ajudá-lo na missão de sua vida. Reencontrar sua mulher, Broomhilda (Kerry Washington), que foi vendida a uma enorme fazenda distante, pertencente ao perverso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

DiCaprio está ótimo na pele de um fazendeiro racista perverso, de barbicha, cavanhaque e colete, que se deleita em organizar lutas mortais entre escravos, que, como as dos antigos gladiadores, devem terminar com a morte de um dos oponentes. Para se aproximar dele, a dupla de caçadores de recompensas oferece uma alta soma para comprar um de seus lutadores, tudo como pretexto para, na verdade, negociar a liberdade de Broomhilda.

Tudo seria muito tranquilo se Candie não tivesse atrás de si um escravo velho, esperto e puxa-saco, Stephen (Samuel L. Jackson). Por causa dele, muito sangue há de rolar e a coisa vai ficar feia para Django e Schultz.

Fiel à sua tradição, Tarantino também garante a renovação da imagem de alguns atores veteranos, caso de Don Johnson (“Miami Vice”) na pele do “Paizão”, rico proprietário rural pertencente à Ku Klux Klan, organização que é ridicularizada como nunca numa antológica sequência envolvendo a confecção de seus capuzes. Até Tarantino faz uma ponta, em outra cena altamente bem-humorada, envolvendo dinamite.

Evidentemente, ninguém vai assistir a “Django Livre” como se visse um documentário ou lesse um livro de história, assim como acontecia com “Bastardos Inglórios”.

O diretor procura o entretenimento, mas não resta dúvida de que tem um cérebro antenado. Até porque ele nunca minimiza os terríveis sofrimentos impostos aos escravos por senhores que os consideravam, legalmente, sua propriedade e sequer admitiam sua condição humana.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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