30 de Maio de 2013 / às 18:28 / em 4 anos

ESTREIA-Em "Faroeste Caboclo", René Sampaio contraria fãs e foge de videoclip

SÃO PAULO, 30 Mai (Reuters) - Não tinha medo o tal René Sampaio, de Brasília. Era o que todos diziam quando ele se meteu a fazer seu primeiro longa-metragem se inspirando em uma das canções mais famosas da música brasileira contemporânea.

Os fanáticos pela banda Legião Urbana talvez não gostem da forma que o diretor encontrou para adaptar o clássico da banda de rock brasiliense, pois o filme “Faroeste Caboclo” está longe de ser o videoclipe estendido que os fãs imaginavam.

Sampaio foi corajoso. Mas se o próprio Renato Russo teve o estalo de compor um western de vingança em “Rocky Racoon”, dos Beatles, por que o filme também não poderia ser uma livre adaptação da canção que serve de base para o roteiro de Marcos Bernstein e Victor Atherino? Carmen Manfredini, irmã do vocalista, lembra que ela e Renato Russo costumavam ouvir “Rocky Racoon”, faixa do “Álbum Branco”, quando eram crianças.

Com a execução dos mais de nove minutos da música durante os créditos finais da produção, a maioria dos espectadores - que, dessa vez, não terá vontade de sair da sala de exibição até o filme realmente acabar - perceberá as diferenças entre a composição e a sua transposição para o cinema.

Alguns versos são esquecidos, uns são transformados, outros são mantidos e há aqueles que são aprofundados. A opção feita pelo diretor estreante foi focar e explorar a história de amor shakespeariana de João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) e Maria Lúcia (Ísis Valverde) como forma de explicar a motivação do duelo final.

Mesmo assim, René, que já havia discutido questões universais como destino versus escolha em seu curta “Sinistro” (2000), premiado no Festival de Brasília, retomou estes temas em uma crítica social que serve como pano de fundo para o romance trágico.

Foram retratados na tela o poder ilimitado de políticos, representados na figura do senador Ney, no último trabalho do ator Marcos Paulo; a corrupção da polícia; e os traficantes, sem esquecer a classe média consumidora do “bagulho bom” que os sustenta.

Nesse cenário conturbado de Brasília, a câmera na mão, muito próxima de seus personagens, dá a tensão da vida de João na capital. Bem diferente daquela mais contemplativa nos flashbacks um tanto constantes da vida pregressa do protagonista, cuja infância e adolescência no sertão da Bahia não foram nem de longe calmas; mas, ali, o infortúnio dele não gerava apreensão em ninguém.

A música e o longa escancaram o fato de que a seca e a miséria do povo nordestino - representadas na criativa elipse do poço, logo no início do filme - são apenas assistidas pelos governantes e pelo resto da população, se tornando motivo de preocupação somente quando a desgraça vem assombrá-los, como o bandido Santo Cristo, “destemido e temido no Distrito Federal”, e sua Winchester 22.

Para representar o mundo e o submundo do crime no Brasil, as sequências de consumo de drogas e violência, apesar de não serem tão sangrentas como as de Quentin Tarantino, não deixam de ser fortes para o público acostumado com o que o cinema comercial nacional tem oferecido nos últimos anos. Por outro lado, as cenas de sexo são poéticas na hora de retratar o amor de João e a menina linda a quem ele prometeu seu coração.

O trabalho na trilha sonora de Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude, juntamente com Lucas Marcier, ajuda a dar esse tom, com as músicas incidentais nesses e em outros pontos do filme.

A compilação de clássicos do rock também exerce função importante em alguns momentos para revelar a efervescência da cena punk que tomava Brasília nos anos 1980, em festas como a Rockonha, que realmente “fez todo mundo dançar”, no sentido literal e figurativo do termo.

Outro destaque é o elenco, que conta com boas atuações, como a de Antonio Calloni na pele do policial corrupto e de Fabrício Boliveira encarnando o protagonista, em todas as nuances do anti-herói da famosa letra.

Como o título da produção e da obra que a inspirou revela, o clima de western não podia faltar ao filme, que traz planos bem característicos do gênero, especialmente - perdão, mas o que vem a seguir não pode ser considerado spoiler, pois todo mundo já conhece o final por ter ouvido a música e o próprio longa inicia com esta situação - na cena do duelo entre Santo Cristo e Jeremias (Felipe Abib), mas de um modo bem brasileiro: René coloca os dois em um campinho de futebol, praticamente em uma disputa gol a gol. Tem faroeste mais caboclo que este?

(Por Nayara Reynaud, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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