4 de Março de 2008 / às 20:41 / em 9 anos

Real forte muda empresas, que ainda cobram política industrial

Por Renata de Freitas

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria eletroeletrônica brasileira avalia que já fez o que podia para contornar o real valorizado e continuar exportando. Agora, prevendo déficit comercial do setor de 20 bilhões de dólares em 2008, diz que é hora de o governo adotar uma política industrial que garanta condições de competitividade iguais às de outros países.

"Um setor que tem déficit crônico como o nosso tem a obrigação de apontar para o governo as oportunidades de ocupar este mercado", afirmou o empresário Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), representante de um setor que movimentou mais de 110 bilhões de reais em 2007.

"Não vamos pedir proteção nenhuma para a indústria instalada no Brasil. Não queremos ser chamados de 'órfãos do velho modelo'. Queremos condições de igualdade", declarou a jornalistas ao apresentar nesta terça-feira um documento elencando "Propostas para uma nova política industrial, tecnológica e de comércio exterior".

As sugestões foram discutidas com especialistas do BNDES e de outros órgãos oficiais, segundo Barbato, que fez questão de valorizar a iniciativa do governo de lançar --espera-se para ainda este mês-- uma política industrial. A expectativa da Abinee é de que pelo menos a proposta de desoneração de encargos trabalhistas para os exportadores de software faça parte do pacote.

"Existe um diálogo", comentou o empresário, elogiando a atuação do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, e do presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Por outro lado, Barbato não poupou crítica ao governo Fernando Henrique Cardoso, lembrando que à época se alegava que "a melhor política industrial era não ter política industrial".

NO LIMITE

Sócio da Cerâmica Santa Terezinha, o presidente da Abinee abriu os bastidores dos esforços feitos recentemente para continuar exportando seu único produto, isoladores elétricos de vidro e cerâmica, frente à valorização do real de 26 por cento nos últimos 12 meses.

Na ânsia de reduzir custos, ele baixou a guarda e mudou, por exemplo, a matriz energética da fábrica, em Pedreira, interior de São Paulo, de gás liquefeito de petróleo para gás natural. "Resisti o quanto pude", admitiu, diante do momento delicado de abastecimento de gás natural para a indústria.

Considerando os ganhos de produtividade, a recuperação de preço dos bens exportados e a moeda forte, ainda assim a fatia das vendas externas no faturamento da Cerâmica Santa Terezinha encolheu de 40 para 27 por cento no ano passado.

"Houve mudanças muito violentas no processo produtivo das empresas. Não se esperava que a indústria fosse capaz de fazer tantas mudanças para manter o retorno com as exportações", disse o empresário. "Graças aos ganhos de produtividade, tenho mais condições de continuar concorrendo", afirmou.

Com o dólar abaixo de 1,70 real, a indústria está no limite da compensação cambial por ganho de produtividade decorrente de redução de custos, avalia o gerente do Departamento de Economia da Abinee, Luiz Cezar Rochel, membro da equipe técnica que organizou as propostas de política industrial da associação.

"As exportações estão estáveis e as importações, crescendo. A indústria atua para reduzir custos, mas isso tem um limite", afirmou à Reuters. "Outras iniciativas, como custo menor de mão-de-obra e de infra-estrutura, começam a ganhar mais importância agora do que quando o dólar estava a 2 reais", disse.

O assessor-econômico da Abinee, Carlos Cavalcanti, que também integrou a equipe técnica, justificou a necessidade de uma política industrial "que garanta qualidade à produção, com ganhos de produtividade que compensem a política cambial".

A redução da carga tributária, é claro, está contemplada nas propostas do setor, que defende, por exemplo, a desoneração da folha de pagamentos de empresas de mão-de-obra intensiva. A adoção dessa medida está condicionada pelo governo à aprovação da reforma tributária no Congresso.

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