16 de Novembro de 2007 / às 14:01 / 10 anos atrás

ENTREVISTA-Pai da Internet vê governos longe do controle da Web

Por Pedro Fonseca

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Vinton Cerf, tido como um dos primeiros "pais" da Internet, acredita que será muito difícil para os governos aumentarem seu controle sobre a rede mundial de computadores por meio de entidades internacionais nos moldes da ONU e defendeu o atual modelo de gestão da Web, com a participação de múltiplos setores da sociedade.

O norte-americano de 64 anos, que ao lado do colega Robert Kahn desenvolveu na década de 1970 os protocolos TCP/IP, a base da infra-estrutura de comunicação dos computadores ligados à Web, se diz contrário à criação de uma entidade intergovernamental que substitua o monopólio da Icann. A organização sem fins lucrativos, da qual ele fez parte da diretoria até outubro, é vinculada ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos.

"Praticamente todos os países do mundo têm algum acesso à Internet, alguns menos que os outros. Então é tentador pensar que você precisa de uma estrutura com os moldes da ONU, mas pensar isso é errado", disse Cerf nesta quarta-feira em entrevista à Reuters no Rio de Janeiro, onde participa do Fórum de Governança na Internet (IGF).

"E a razão para isso é que 99 por cento da Internet está nas mãos do setor privado", explicou o pesquisador. "São 1 bilhão de usuários espalhados pelo mundo, não é apenas algo governamental a se controlar, e por isso que você precisa dessa estrutura de participantes de múltiplos setores para avaliar todas as perspectivas possíveis."

Cerf deixou a Icann após sete anos na diretoria da entidade, formada por representantes de governos, setor privado e academia e que conta com integrantes brasileiros. O pesquisador é atualmente executivo do Google e é convidado ilustre do IGF, evento que acontece em meio a crescentes pressões pelo aumento do controle dos governos sobre a Web.

Países como o Irã, a China e até o Brasil argumentam que a Internet deveria ser administrada pela Organização das Nações Unidas (ONU) ou outra organização mundial.

SUCESSO INESPERADO

Após confessar que não gosta de ser chamado de "pai da Internet", já que "há muitas pessoas que fizeram a Internet acontecer", o pesquisador disse que não imaginava que a rede mundial pudesse atingir a magnitude que atingiu tão rapidamente. Ele lembra que o objetivo sempre foi garantir o acesso a todos.

A popularidade da Internet, entretanto, acabou atraindo pessoas que fazem mal uso dela, o que é motivo de tristeza para Cerf, que propõe a elaboração de acordos internacionais que estabeleçam punições a quem violar regras de acesso à rede.

"Quando se cria uma infra-estrutura que está disponível para o público, todas as coisas boas e ruins das pessoas acabam aparecendo na Internet", disse ele. "O que podemos fazer é estabelecer alguns acordos globais sobre o comportamento que é aceitável e o que não é aceitável na rede, e dizer às pessoas que elas sofrerão consequências se forem pegas fazendo o que é socialmente inaceitável."

E O FUTURO?

Cerf está engajado em um novo projeto de desenvolvimento de uma "Internet interplanetária" em parceria com a Nasa, a agência espacial norte-americana.

"Parece ficção científica, né? Mas na verdade é engenharia", afirmou, demonstrando empolgação com o projeto.

"Quando mandamos uma aeronave para o espaço ou para pousar em alguma superfície, nós precisamos nos comunicar com essas naves", disse. "E com o passar do tempo, haverá cada vez mais naves em operação ao mesmo tempo, e a consequência disso é que nós precisaremos de recursos de comunicação mais ricos do que apenas sistemas ponto a ponto."

Enquanto o homem ainda não entope o Universo com espaçonaves, o pesquisador acredita que dentro de 15 anos até as roupas estarão conectadas à Internet e que será possível mandar emails e conversar com amigos a partir de uma ampla gama de aparelhos, como geladeiras equipadas com telas sensíveis a toques.

Estar conectado, segundo ele, será algo "invisível".

"Talvez a gente nem pense mais nisso. A rede simplesmente estará lá", disse o cientista, que controla sua adega de vinhos pela Internet.

"As informações de temperatura e umidade são enviadas para um pequeno servidor Web que eu posso acessar de qualquer lugar do mundo para ter certeza que meu vinho está bom", disse ele com um ar de satisfação.

Edição de Alberto Alerigi Jr.

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