18 de Fevereiro de 2010 / às 13:29 / em 8 anos

Para fornecedores da Apple, sigilo é questão de segurança pesada

Por James Pomfret e Kelvin Soh

LONGHUA, China/TAIPÉ, 18 de fevereiro (Reuters) - O imenso complexo industrial localizado na cidade de Longhua, no sul da China, parece uma fortaleza. Para entrar, trabalhadores precisam usar cartões magnéticos nos portões. Guardas identificam os ocupantes de cada veículo por meio de leitores portáteis de impressões digitais.

Caminhões de transporte de contêineres e empilhadeiras percorrem o vasto complexo ininterruptamente, atendendo a uma teia de fábricas que produzem bens eletrônicos para as maiores marcas mundiais, 24 horas por dia.

Dentro da cidade murada, um dos diversos complexos operados pela Foxconn International, uma grande fornecedora da Apple, os funcionários têm atendidas a maior parte de suas necessidades cotidianas. Existem dormitórios, refeitórios, centros de recreação e até mesmo bancos, padarias e agências de correio.

Os funcionários mais humildes do complexo têm poucos motivos para sair. Isso reduz a probabilidade de vazamentos, e por sua vez atenua o risco de despertar a ira da Apple e de seu presidente-executivo, Steve Jobs, cujos lançamentos de produtos se transformaram em longos e muito controlados espetáculos de mídia.

Muitos dos produtos finais da Apple, do iPod ao iPad, são montados em complexos industriais como o de Longhua. E quando se trata de proteger os segredos da Apple, a Foxconn, unidade da Hon Hai Precision Industry, e outros fornecedores da região preferem deixar pouco ao acaso.

“Eles usam detectores de metais e nos revistam. Se você estiver carregando quaisquer objetos metálicos ao sair, chamam a polícia”, disse um trabalhador uniformizado do lado de fora de uma fábrica em Longhua, cidade localizada a cerca de uma hora de distância de Hong Kong.

Edward Ding, porta-voz da Hon Hai, sediada em Taiwan, preferiu não comentar, e o mesmo vale para a Apple.

Mas de acordo com informações de fontes chinesas e de outros locais na Ásia, a Apple vai “ao extremo”, nas palavras de um profissional do setor, para proteger até mesmo os menores detalhes dos produtos novos que têm em desenvolvimento.

PEGANDO NO PULO

Muitas das táticas empregadas pela companhia se assemelham a estratégias que costumam ser vistas em romances de espionagem: a informação é protegida assiduamente e distribuída apenas àqueles que precisam dela para seu trabalho. Os funcionários suspeitos de permitir vazamentos de informações podem ser investigados pelo fabricante terceirizado e a empresa deixa claro que não hesitará em abrir processos caso seus segredos sejam expostos.

A Apple ocasionalmente envia produtos diferentes aos fabricantes terceirizados, apenas para testá-los. Dessa forma, a fonte de quaisquer vazamentos se torna imediatamente óbvia, dizem pessoas que conhecem bem a cadeia de suprimento.

E ao contrário de outros fabricantes de eletrônicos, alguns dos quais preferem a conveniência de entregar todo o trabalho desse tipo a apenas um fornecedor, a Apple não depende de uma única empresa para fornecer todos os componentes de um produto. Fontes setoriais afirmam que a empresa muitas vezes divide seus projetos em pequenos lotes.

“Isso garante que as únicas pessoas a terem todos os segredos sobre um produto da Apple sejam os profissionais da própria Apple”, disse um executivo em uma subsidiária da Hon Hai Precision Industry. “Outras empresas de tecnologia também procuram por fontes próprias de componentes, para fins de comparação, mas nenhuma delas faz tanto por conta própria quanto a Apple.”

O resultado é que nem mesmo as pessoas que trabalham nas linhas de montagem fazem ideia de que cara terá o produto final.

A discrição que a Apple requer de seus fornecedores é simplesmente uma extensão da forma pela qual ela opera em sua sede, em Cupertino, Califórnia, dizem antigos funcionários do grupo.

A obsessão da Apple quanto ao sigilo é uma lenda no Vale do Silício. Ao longo dos anos, a empresa demitiu executivos por vazamento de informações e processou blogs para impedir a exposição de seus segredos comerciais.

Um ex-funcionário, que trabalhava no departamento de marketing na época do lançamento do iPhone, diz que os trabalhadores compreendem que o segredo é parte da mística da Apple, e que eles preservam o silêncio por conta própria.

“Eu não falava sobre o trabalho nem com minha mulher”, diz. “É uma cultura do silêncio, e todos aceitam. Você se acostuma a não falar do trabalho, e isso se torna normal porque todos agem da mesma forma.”

PEGANDO PESADO

Na China, um repórter da Reuters descobriu da maneira mais difícil como fornecedores da Apple levam a sério a questão da segurança.

Depois de receber uma dica de um funcionário do complexo de Longhua, próximo à fábrica da Foxconn, que por sua vez também fabrica componentes para a Apple, nosso correspondente pegou um táxi para visitar as instalações em Guanlan, que fabrica produtos para uma grande variedade de empresas.

Assim que ele parou em uma rua para tirar fotos em frente ao portão e ao local de inspeção de segurança, um guarda gritou. O repórter continuou tirando fotos antes de voltar ao táxi que o esperava. O guarda, então, bloqueou o veículo e ordenou ao motorista que parasse, ameaçando-o de tirar sua licença.

O correspondente saiu do carro e insistiu que estava dentro dos seus direitos já que estava tirando as fotos do lado de fora do complexo, a partir da estrada pública. O guarda segurou seu braço e um segundo segurança o derrubou. Enquanto uma multidão de trabalhadores da Foxconn olhava, eles tentaram levar o correspondente para dentro da fábrica.

O repórter exigiu ser libertado. Quando isso não aconteceu, ele conseguiu se soltar e começou a se afastar. O guarda mais velho o chutou nas pernas. O segundo segurança ameaçou bater nele novamente se tentasse se escapar novamente. Alguns minutos depois, um carro da segurança da Foxconn chegou, mas o repórter se recusou a entrar nele. Em vez disso, ele chamou a polícia.

Depois que as autoridades chegaram e mediaram a situação, os guardas pediram desculpas e o assunto foi resolvido. O repórter saiu do local sem prestar queixa formal contra os seguranças, mesmo que a polícia tivesse sugerido a opção.

“Você é livre para fazer o que quiser”, disse o policial. “Mas esta é a Foxconn e eles têm um status especial aqui. Por favor, compreenda.”

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