23 de Outubro de 2007 / às 03:56 / em 10 anos

ENTREVISTA-Barrichello refuta imagem de perdedor e faz biografia

Por Camila Moreira

SÃO PAULO (Reuters) - Dois anos depois de deixar a Ferrari, Rubens Barrichello ainda não digeriu certas situações que viveu na equipe italiana. Com 15 anos de experiência na Fórmula 1, ele diz entender a imagem de perdedor que muitas vezes se faz dele, mas promete contar em um livro histórias que vão esclarecer muitas questões.

Em entrevista à Reuters nesta quinta-feira, no autódromo de Interlagos, o piloto da Honda afirmou não acreditar que tem falta de sorte, e contou que está escrevendo, de próprio punho, sua biografia.

“Estou no primeiro capítulo, sobre o kart...o capítulo maior vai ser o da Ferrari”, disse ele, relembrando os seis anos em que correu ao lado do heptacampeão mundial Michael Schumacher.

Barrichello pode tornar-se no ano que vem o piloto com maior número de GPs disputados, ultrapassando Ricardo Patrese. Nesta temporada, entretanto, ele corre o risco de encerrar tendo apenas um nono lugar na Inglaterra como melhor resultado, se não tiver um desempenho superior no Grande Prêmio do Brasil, no domingo.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

“NASCI PARA ISSO”

“Nunca quis ser o Ayrton (Senna) e nunca falei que queria ser o Ayrton. Eu sim sinto que nasci para fazer isso e tirei o melhor proveito da melhor maneira possível. O povo brasileiro não sabe da história inteira de tudo que aconteceu em meus anos de Ferrari. Não estou aqui para choramingar, mas a minha visão é que eu já teria sido campeão do mundo facilmente porque eu tinha o melhor carro do grid. Ainda estou devagarzinho escrevendo meu livro e vai acabar daqui uns 2, 3 anos. Não quero que 100 por cento do povo me ame, quero só contar a realidade.”

IMAGEM DE PERDEDOR

“Não acredito que a minha imagem seja de perdedor. A imagem é sim diferente daquela do Ayrton Senna, de acordar e com certeza ter a emoção da vitória. Eu estou longe de ser perdedor, principalmente dentro das pistas, por tudo aquilo que eu conquistei. Eu não sinto na rua o que é escrito, sinceramente não sinto a rejeição que é passada como uma coisa que existe. É como um ator que está fazendo um ótimo papel, mas é vilão. Muitas vezes as pessoas querem pegar ele na rua. Acho que de uma certa forma o esportista acaba sofrendo isso, porque ele está na televisão.”

“Mas eu entendo o ponto, também fico chocado quando o Brasil está para ganhar uma medalha, e falaram tanto -- porque é isso que cria a expectativa.... Se falaram que vai ganhar 4 medalhas e ganharam 3, já existe uma decepção. O Rubinho, tendo o melhor carro, porque não ganhou? Então participo disso também, e tento ter o coração aberto e responder.”

FALTA DE SORTE

“Eu não consigo imaginar o Rubinho tendo falta de sorte, olha a vida que eu tenho. E não falo por dinheiro, (...), mas é por tudo que eu consegui. O próprio Felipe (Massa) hoje está na Ferrari porque a porta foi aberta de certo modo por alguém que acho que fui eu. Não tenho mesmo como aceitar a fama de não ter tido sorte.”

CONTRIBUIÇÃO PARA A F1

“Uma coisa que eu tenho certeza que (contribuí), para que a F1 pudesse ser um pouco mais aberta ao público, foi a (corrida na) Áustria, quando eu tive que deixar o Michael passar (na linha de chegada, em 2002). Isso fez com que as regras de hoje fossem mais abertas, a FIA escuta o rádio. De uma certa forma, isso é uma contribuição. O esporte tem que ser muito aberto. Foram seis anos de luta, eu não quero nada melhor que você, mas você me dá igual o que você tem, é isso que eu sempre quis da Ferrari.”

F1 APÓS 15 ANOS

“3, 4 anos depois você já passou por aquela euforia de ‘nossa que legal’ para até começar a ficar cheio, porque a demanda de coisas que tem que fazer de eventos, compromissos, é muito grande. Eu aos 15 anos (de F1) já sei administrar bem ambas as situações, então hoje tenho mais prazer do que em qualquer outro ano.”

ERROS DA HONDA

“(O carro é ruim) porque houve uma falta de comunicação. (O pessoal da) parte aerodinâmica trabalhou muito separadamente da parte mecânica, do cara que faz o motor. O carro nasceu em pedaços. Neste ano, apesar de tudo que a gente fez, só piorou. É o carro do começo do ano, quando todo mundo já evoluiu.”

OPÇÕES

“Não parei para analisar (as opções quando o contrato com a Honda acabar em 2008), porque essa situação é como uma largada, se você colocar empecilhos na frente a coisa afunila demais. Se eu tiver a mente aberta, fazendo um bom trabalho, largando bem, as situações se abrem na minha frente, Então é dessa forma que eu vejo o futuro. Se o carro continuar do jeito que está e não tiver outra opção, é hora de parar e os 16 anos de F1 na minha opinião foram um sucesso. Se eu tiver o prazer que tenho hoje de guiar, não quero parar.”

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