10 de Fevereiro de 2016 / às 15:40 / em 2 anos

Enfraquecimento de mosquito do Zika na Olimpíada não está garantido

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Alarmados pelo crescente temor global acerca da propagação do Zika vírus, autoridades brasileiras e organizadores dos Jogos Olímpicos estão dizendo a quem pretende visitar o Brasil na Olimpíada para não terem medo.

Mosquitos Aedes aegypti em laborartório de Campinas, em São Paulo. REUTERS/Paulo Whitaker

O mês de agosto, quando o Rio de Janeiro sediará os Jogos Olímpicos, coincide com meados do inverno no Hemisfério Sul, época em que o clima estará mais seco e mais frio do que o normal na cidade, proporcionando condições menos hospitaleiras para o mosquito que transmite o vírus.

“Essa época do ano é a estação de seca, no inverno, e não temos histórico de ação do mosquito nesse período”, afirmou recentemente o prefeito do Rio, Eduardo Paes, a jornalistas. Mas não é assim tão simples, dizem os cientistas.

É verdade que a chuva e a temperatura naquele mês geralmente ficam abaixo da média anual. Mas, ainda que fique menos ativo do que nos meses mais quentes, o mosquito Aedes aegypti nunca desaparece totalmente.

Seus ovos, que podem ficar inativos por mais de um ano, eclodem em questão de minutos com qualquer rápido aumento da umidade ou do calor, o que tem acontecido nos últimos anos mesmo no inverno tropical.

Uma análise da Reuters de registros municipais de saúde de alguns anos mostra que infecção transmitida por mosquitos nos meses de agosto pode ser tão ruim ou até pior do que nos meses de pico usuais para as infecções.

“O clima é variável”, diz Nancy Bellei, diretora de virologia clínica da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Não podemos simplesmente esperar uma temperatura mais baixa e que o vírus não se espalhe.”

Além da meteorologia, o contágio depende de outros fatores, como se o vírus está realmente circulando em meio a uma determinada população, se essas pessoas já tiveram exposição anterior a esse vírus e qual a sua prevalência em determinados momentos.

Até o ano passado não se tinha nem sequer notícia de que o Aedes aegypti, que transmite o vírus ao picar uma pessoa infectada e, em seguida, picar outra pessoa, transportava o Zika vírus nas Américas.

Se ficarem doentes, os pacientes geralmente apresentam sintomas de Zika ou das outras doenças transmitidas pelo mesmo mosquito, dengue e chikungunya, até uma semana depois da picada.

Dados do serviço municipal de saúde do Rio, cidade de mais de 6 milhões de habitantes, referentes à dengue, mostram como as taxas de infecção podem variar. De todos os casos registrados a cada ano, desde 2011, as infecções em agosto variaram de menos de 1 por cento do total anual, em 2012 e 2013, para cerca de 6 por cento em 2014.

Mas os meses de agosto de alguns anos podem ser piores do que os meses de pico típicos em outros. Em agosto do ano passado, por exemplo, o Rio registrou 794 casos de dengue, número maior do que os 773 casos notificados em 2014 durante os meses combinados de março, abril e maio, normalmente, três dos piores meses para a infecção.

Este ano, o fenômeno climático El Niño, que está causando aumento de temperatura no Sul do Brasil, mas deve desaparecer até meados do ano, pode estar contribuindo para um novo surto de infecções por dengue. Em janeiro, segundo dados municipais de saúde, foram registrados 1.122 casos, em comparação com apenas 165 um ano atrás.

RISCO COLETIVO

Muito ainda é desconhecido sobre o Zika vírus, incluindo a possível ligação do vírus à má-formação do cérebro de cerca de 4.000 bebês no Brasil. Os pesquisadores também ainda estão investigando se o vírus pode ser transmitido por meio de relações sexuais, transfusões de sangue ou outros contatos com fluidos corporais, como saliva e urina, onde o vírus foi encontrado ativo recentemente.

Mas os cientistas concordam que o mosquito é de longe o principal meio de transmissão. Qualquer aglomeração de pessoas oferece riscos para infecções virais, do resfriado comum às doenças sexualmente transmissíveis.

O governo do Brasil espera cerca de 500 mil visitantes estrangeiros durante os Jogos Olímpicos do Rio, que acontecem de 5 a 21 de agosto. Representantes do município e da organização dos Jogos dizem que vão inspecionar as atrações turísticas e os locais das provas esportivas diariamente, para garantir que estarão livres de poças e outros locais de reprodução para os mosquitos.

Mas para os cientistas, as autoridades estão tendo uma visão limitada ao pensar apenas sobre as condições meteorológicas e de propagação dos mosquitos. Segundo eles, alguns visitantes devem aproveitar a viagem para ver outras partes do Brasil e da América Latina, onde o vírus também está presente e onde o clima e a taxa de reprodução dos mosquitos será totalmente diferente.

Embora o risco de infecção ou de desenvolver a doença possa realmente permanecer baixo para os viajantes individuais, especialmente por se tratar de um vírus que não causa sintomas em quatro de cada cinco pessoas infectadas, os Jogos Olímpicos ainda podem permitir que o Zika vírus se espalhe ainda mais.

“O maior risco é coletivo”, diz Chris Barker, um epidemiologista que estuda Zika, dengue e outros vírus semelhantes na Universidade da Califórnia em Davis. “A probabilidade de que pelo menos alguns visitantes peguem Zika no Rio é significativa.”

Alguns cientistas temiam que estrangeiros em visita ao Brasil por causa da Copa do Mundo de 2014 contraíssem dengue, mas um estudo de 2015, publicado na revista médica britânica The Lancet, mostrou que muito poucos realmente contraíram.

Ainda assim, o torneio foi realizado em 12 cidades diferentes, algumas das quais estavam sofrendo com a pior seca do Brasil em décadas, o que causou uma queda na população de mosquitos.

O Rio registrou um total de 2.649 infecções por dengue naquele ano, em comparação com 18.059 em 2015. Em 2012, foram registrados mais de 130.000 casos, no pior ano em relação à dengue até agora nesta década.

Como muitas das paisagens urbanas da América Latina, o Rio é uma cidade repleta de construções pobres e não planejadas, com instalações inadequadas de água, lixo e de serviços de esgoto. Sua estrutura tem cantos e recantos, muitos deles dentro das casas, onde água derramada ou mal armazenada, independentemente das chuvas, pode virar criadouro de larvas de mosquitos.

“A associação pode ser muito mais forte com a temperatura do que com a chuva”, diz Denise Valle, entomologista que estuda o Aedes aegypti na Fundação Oswaldo Cruz, instituto médico de saúde pública que faz parte do grupo que conduz as pesquisas sobre Zika, dengue e outras doenças tropicais. “Os ovos estão nas ruas, nas casas. O mosquito está cada vez mais domesticado. Com calor, ele volta.”

Reportagem adicional de Joshua Schneyer, em Nova York

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