22 de Agosto de 2016 / às 21:42 / em um ano

Fim da Rio 2016: de volta à realidade e às preocupações econômicas e políticas

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Até agora, os brasileiros tinham algo a esperar. Apesar de uma recessão histórica, do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff e da operação Lava Jato, a Olimpíada do Rio de Janeiro de 2016 surgia no horizonte como um derradeiro raio de luz vindo de uma era mais brilhante em que o Brasil parecia estar com a casa em ordem.

Capacetes de taekwondo em arena usada durante a Olimpíada Rio 2016 17/08/2016 REUTERS/Issei Kato

    Após a cerimônia de encerramento de domingo, no entanto, o apagar da chama olímpica pode ter sido o término de um capítulo da história brasileira –e o início de um período no qual o maior país da América Latina, agora com seus sonhos abatidos, se vê mais uma vez muito aquém de seu potencial econômico e político.

    “Já não tem mais nada para disfarçar a dura realidade do Brasil agora”, disse o cientista político e professor da Unicamp Roberto Romano. “Essa ideia grandiosa em que muitos acreditavam até há pouco não tem mais nada que a sustente”.

    A ideia grandiosa era a de que o Brasil, após quase uma década de crescimento econômico que tirou mais de 30 milhões de pessoas da pobreza, finalmente estava no patamar a que pertence. A Rio 2016 e a Copa do Mundo de 2014 deveriam servir para ilustrar sua chegada ao grande palco global.

Em vez disso, a economia do país e o governo petista que presidiu essa ascensão começaram a desmoronar quase em consonância com esses grandes eventos, fazendo com que se desenrolassem apesar das circunstâncias, não por causa delas.

É certo que os Jogos tiveram seus tropeços –desde a água verde na piscina dos saltos ornamentais a uma câmera que se soltou de um cabo guia, ao escândalo internacional do falso assalto à mão armada do nadador norte-americano Ryan Lochte.

E os questionamentos a respeito da suposta corrupção nos contratos de infraestrutura e de construção dos locais de competição irão perdurar por anos, para não falar do preço final da Rio 2016, que deve ultrapassar a cifra de ao menos 40 bilhões de reais anunciada pelos organizadores.

Ainda assim, os Jogos transcorreram nos termos que muitos brasileiros haviam previsto: as competições aconteceriam tranquilamente e os problemas de segurança e logística, suavizados pelas férias, que reduziram o trânsito, e uma mobilização enorme de 85 mil policiais e soldados, não seriam muito piores do que o normal em uma cidade que é caótica mesmo em seus melhores dias.

‘E AGORA?’

    Com a Rio 2016 encerrada, porém, os brasileiros estão se perguntando: “E agora?”

    “A Olimpíada foi divertida, mas foi uma distração”, disse Flavio Mattos, instrutor de fitness de 37 anos do Rio, depois de ver o Brasil perder da Espanha no polo aquático no sábado. “Agora temos problemas sérios para resolver.”

Basta considerar a situação do governo.

    Nesta semana, o Senado começa o julgamento do impeachment de Dilma, afastada desde maio devido a alegações de crime de responsabilidade fiscal.

Tanto ela quanto Lula estão sendo investigados por suposta obstrução da Justiça durante as investigações da Lava Jato.

A economia brasileira, outrora motivo de inveja de um mundo desenvolvido abalado pela crise financeira mundial, está atravessando sua pior recessão em décadas. Embora alguns indicadores insinuem que a economia já atingiu o fundo do poço e agora se inicia uma recuperação tímida, outros, como a taxa de desemprego, que recentemente ultrapassou os 11 por cento, continuam a apontar para tempos difíceis.

Por culpa dos gastos crescentes dos bons tempos, parte da mesma postura que levou o Brasil a sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo em um intervalo de dois anos, as contas públicas são insustentáveis.

Partindo de um recorde negativo de 3 por cento em 2013, o déficit orçamentário do governo chegou a quase 10 por cento da economia do país no ano passado.

“A gente está muito próximo ao abismo”, disse Samuel Pessoa, diretor do Centro de Crescimento Econômico da Fundação Getúlio Vargas, que calcula que a economia brasileira terá encolhido até 10 por cento entre 2015 e o final do ano que vem.

Sem reformas para conter os gastos públicos com salários, aposentadorias e programas sociais, dizem ele e outros economistas, o governo do Brasil irá quebrar.

“A cortina desceu”, afirmou o antropólogo Roberto DaMatta. “A realidade terá que se instalar.”

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