June 9, 2018 / 7:14 PM / 5 months ago

Assuntos privados: Financiamento estatal compromete o futebol russo

MOSCOU (Reuters) - Quando a Rússia, anfitriã da Copa do Mundo, abrir a próxima edição do torneio no dia 14 de junho, estará colocando em campo o time com a pior colocação no ranking da Fifa entre todos os classificados. A seleção russa está, inclusive, três posições abaixo de sua oponente na estreia, a seleção da Arábia Saudita.

Não há apenas uma explicação para o que aflige o futebol russo, mas uma das origens dos problemas da seleção nacional pode estar em uma característica da economia russa: o pesado envolvimento estatal.

Com algumas exceções notáveis, investidores privados ignoram o futebol russo. A maioria dos grandes clubes do país é financiada por autoridades regionais e por empresas estatais, deixando equipes vulneráveis a cortes de orçamento e mudanças de prioridades políticas.

A incerteza levou muitos dos patrocinadores estatais a cortar investimentos em desenvolvimento de jogadores e, no caminho oposto, importar estrelas estrangeiras mais caras, em uma corrida por resultados quando o momento é bom, e em cortes quando os orçamentos estão apertados.

“Todos querem ser velocistas. Ninguém quer investir a longo prazo”, disse Anatoly Vorobyov, o ex-secretário geral da União de Futebol Russo.

“Em vez de investir em escolas, nas categorias de base, uma grande fatia do investimento estatal é gasto em jogadores estrangeiros, em contratos muito grandes”, disse Vorobyov à Reuters.

Na era soviética, a equipe nacional chegou às semi-finais da Copa do Mundo em 1966, conquistou o título de campeã europeia em 1960 e terminou em segundo lugar três vezes depois. Mas o esporte sofreu quando a União Soviética entrou em colapso: campos de treinamento caíram em desuso em uma época de profundas transformações econômicas e sociais.

Desde 1990, a Rússia se classificou para apenas três edições da Copa do Mundo, vencendo apenas dois jogos. Desta vez, a Rússia se classificou como país sede, mas amarga a pior posição no ranking da FIFA de sua história, no 70o lugar, entre as seleções de Guiné e Macedônia.

POUCOS INCENTIVOS

Leonid Fedun é um dos poucos proprietários de clubes da elite do futebol russo. O bilionário, vice-presidente da gigante do petróleo Lukoil, comprou o Spartak Moscou em 2004 quando o clube passava por graves problemas financeiros.

Fedun criou uma academia para as categorias de base e construiu um estádio de 45 mil lugares que estará entre as 12 sedes do Mundial. O clube da capital russa foi vice-campeão por cinco vezes desde que Fedun assumiu o comando, e finalmente conquistou o título nacional no ano passado, após uma seca de 16 anos.

Entretanto, ele se preocupa que o envolvimento estatal no futebol e na economia de maneira geral está se tornando cada vez maiores, e isso pode ser problemático para o desenvolvimento do esporte.

“O dinheiro estatal está ali e não dá para escapar”, disse à Reuters. “O futebol não pode estar fora desse sistema. Eu não gosto disso. Mas no momento não há alternativa”.

“A maioria dos diretores na liga nacional têm outros interesses”, disse Fedun. “Eles precisam gastar o orçamento dado a eles por patrocinadores estatais, e não trabalhar no desenvolvimento do futebol”.

As atividades do setor público corresponderam a 46 por cento do produto interno bruto da Rússia em 2016, uma alta de 7 por cento desde os 39,6 por cento da década anterior, de acordo com Centro para Pesquisa Estratégica baseado na Rússia.

Em sua estratégia de desenvolvimento para 2030, a União de Futebol Russo pede a substituição gradual do financiamento público no futebol profissional pelos investimentos privados.

Mas a estratégia também afirma que há poucos incentivos para investir no esporte na Rússia dadas as modestas receitas advindas das vendas de ingressos, direitos de transmissão televisiva e merchandising.

“Não há condições no momento para crescimentos significativos nessas receitas no curto prazo”, segundo o documento.

No sábado, o proprietário do FC Tosno, que venceu a edição da Copa da Rússia nesta temporada, anunciou que o clube estava falindo por conta de dificuldades financeiras.

Vendas de ingressos e receitas em jogos representaram menos de 5 por cento para os clubes da primeira divisão da Rússia em 2016, enquanto direitos de transmissão arrecadaram 4,1 por cento, de acordo com um estudo da Price Waterhouse Coopers (PwC) que cita dados da União Europeia de Associações de Futebol (UEFA).

Em oposição, direitos de transmissão nas dez maiores ligas europeias, excluindo a Rússia, representam 38,7 por cento das receitas dos clubes em média, enquanto as receitas com vendas de ingressos e dias de jogos formam 15,5 por cento, de acordo com o estudo.

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