4 de Maio de 2012 / às 19:23 / em 6 anos

Déficit em hotéis tira o sono antes de grandes eventos no país

Por Pedro Fonseca

Obras de construção de um novo hotel para atender à crescente demanda esperada para a Copa do Mundo de 2014, em Brasília, em março. 08/03/2012 REUTERS/Ueslei Marcelino

RIO DE JANEIRO, 4 Mai (Reuters) - Encontrar um lugar para se hospedar no Rio de Janeiro durante a conferência da ONU Rio+20, em junho, virou uma missão impossível para qualquer pessoa que não seja de uma delegação oficial, o que indica o enorme desafio da cidade e do país para sediar a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Conseguir um dos cerca de 31.500 quartos de hotel da cidade durante os quatro dias da conferência está tão difícil que moradores enxergaram uma chance de ganhar dinheiro explorando a falta de hotéis. O desespero de uns, virou uma oportunidade para outros.

Desde o ano passado, Débora Leal vinha se esforçando para conseguir acomodação para jornalistas estrangeiros que vão cobrir a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Sem sucesso em sua busca por hotéis, encontrou amigos que vão deixar suas casas para ter um ganho extra, de 300 a 1.000 reais por dia.

“Alguns amigos estão saindo de casa para receber essas pessoas, é uma forma muito boa de ganhar dinheiro”, disse ela, que participa da organização de eventos paralelos à conferência.

“Eles estão tirando suas roupas dos armários e indo para a casa de familiares. Foi a forma que a gente encontrou, já que os hotéis estavam todos reservados com uma antecedência absurda”, explicou.

O Ministério das Relações Exteriores, responsável pela logística da Rio+20, bloqueou 80 por cento da rede hoteleira carioca para receber as delegações oficiais do evento. A taxa total de ocupação vai superar os 95 por cento nos quatro dias do evento, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ).

Um site de comparação de preços de hotéis mostrou nesta sexta-feira que apenas 3 de 136 hotéis com pelos menos três estrelas tinham quartos disponíveis na cidade para o período da conferência, de 19 a 23 de junho. Num deles, na praia de Copacabana, a diária estava a 2.263 reais na semana da Rio+20, enquanto na semana seguinte ao evento cai para 431 reais.

A escassez na rede hoteleira já está tendo impacto na vinda de integrantes de delegações internacionais. Segundo um integrante da comissão organizadora do evento, “a dificuldade natural de logística” hoteleira deve fazer com que países repensem o número de enviados.

O Parlamento Europeu, por exemplo, cortou sua delegação de 11 integrantes para apenas 1, citando o aumento de custos como motivo.

A Rio+20 será o primeiro de em uma série de eventos internacionais de grande proporção que vão acontecer no país e representa o primeiro teste para a infraestrutura da capital fluminense antes de receber a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, além da Jornada Mundial da Juventude -evento que deve reunir 2 milhões de católicos na cidade em 2013.

NOVOS EMPREENDIMENTOS

Para tentar reverter o déficit nos hotéis, a Prefeitura do Rio flexibilizou a legislação para facilitar a construção de novos empreendimentos hoteleiros na Barra da Tijuca e no centro. Dezessete novos hotéis serão construídos na capital até 2014, e até 2016 serão no total aproximadamente 10 mil novas vagas de hospedagem, segundo a ABIH-RJ.

“O mercado do Rio está deficiente não é de hoje, é de algum tempo”, disse à Reuters Enrico Torquato, presidente da ABIH Nacional.

“Antigamente não vinha ninguém em função do descaso com a segurança, você tinha um fator impactando negativamente o turismo”, disse.

“Hoje você tem uma situação diferente, aumentou a autoestima da população, mais segurança. Era natural que na recuperação isso viesse a acontecer”, afirmou Torquato, lembrando que também houve uma recuperação no valor das tarifas na cidade em consequência do novo momento.

DESACELERAÇÃO

Só a Copa de 2014 deve atrair 600 mil turistas estrangeiros ao país, segundo expectativa do Ministério do Turismo. Outros 3 milhões de brasileiros devem visitar as cidades-sede do torneio, das quais São Paulo e Rio de Janeiro serão as mais requisitadas, com mais de 1,4 milhão e 1,2 milhão de visitas cada uma no total.

A capital paulista era a única cidade-sede considerada com oferta adequada de hotéis quando as 12 sedes da Copa foram anunciadas pela Fifa, em 2009. Em todas as outras, investimentos foram cobrados pela federação internacional e o governo criou uma linha de financiamento de 1 bilhão de reais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção e reforma de empreendimentos.

Além da expectativa de lançamentos, o setor aposta numa paralisação das demais atividades no país para conseguir atender à demanda. “Nenhuma empresa vai fazer um evento aqui nesse momento (durante a Copa). Quando a Copa é fora, o país já dá uma desacelerada, imagina sendo aqui. O país na áerea de business e convenções vai ter uma desaceleração, e isso vai gerar espaço no setor hoteleiro”, disse Torquato.

Em Brasília, escolhida para abrir a Copa das Confederações de 2013 e uma das quatro cidades com maior previsão de visitantes no Mundial de 2014 (600 mil visitas), o déficit hoteleiro já mudou a rotina dos trabalhadores do turismo.

Habituado a confirmar reservas e recepcionar hóspedes no hotel onde trabalha, Bruno Moreira agora está acostumado a fazer algo até então pouco usual: recusar clientes.

Em um outro hotel da capital do país, dois atendentes também contam como passaram a receber turistas durante um grande evento recente, que fez lotar os quartos: “A gente negava todos”.

Em dias normais, segundo Moreira, são quatro ou cinco famílias ou grupos que tem hospedagem recusada por falta de quarto.

“É difícil em semana normal. Quando tem evento na cidade, é impossível ter vagas”, afirmou o agente de reservas de um hotel quatro estrelas em Brasília.

Reportagem adicional de Hugo Bachega em Brasília

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