26 de Outubro de 2014 / às 22:38 / em 3 anos

PERFIL-Com reeleição, aliados torcem que Dilma controladora tenha aprendido com erros

BRASÍLIA (Reuters) - Há quatro anos, a imagem de gestora competente e a onipresença de Luiz Inácio Lula da Silva na campanha foram suficientes para eleger Dilma Rousseff (PT) presidente, sem nunca ter disputado uma eleição. Agora, com a fama de técnica eficiente arranhada pelo fraco crescimento do país e pelos escândalos de corrupção, a reeleição veio no sufoco.

A presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff, concede entrevista coletiva no Rio de Janeiro, na quinta-feira. 23/10/2014 REUTERS/Ricardo Moraes

Retratada, até por aliados, como uma comandante muito apegada a detalhes, que intervém exageradamente na economia, dialoga pouco e que foi politicamente inábil para realizar reformas, a presidente buscou na campanha pedir mais quatro anos para manter e aprofundar o modelo petista.

Dilma deixou de lado a face de gestora e tentou provar que sua imagem de durona e intransigente ficou mais suave desde 2010. Com um novo mandato ganho nas urnas neste domingo, os próximos anos mostrarão se isso foi ou não apenas uma tática eleitoral.

Um dos estrategistas da campanha atual acredita que Dilma aprendeu algumas lições nesses quase quatro anos na Presidência. “No fundo, ela está mais madura”, disse à Reuters sob condição de anonimato.

Um ministro do governo avalia que a presidente, de 66 anos, já mudou e isso ocorreu depois das manifestações de junho de 2013, quando milhares de pessoas foram às ruas para protestar, principalmente, contra a qualidade dos serviços públicos.

À época, Dilma perdeu parte da força quando sua popularidade despencou de um pico de 65 por cento de avaliação de ótimo e bom do governo --registrado pelo Datafolha em março de 2013-- para 30 por cento após as manifestações. O alto índice de aprovação havia dado força política a Dilma, mas também a tinha isolado das críticas e conselhos.

“Ali a presidente entendeu que precisava se abrir, dialogar mais com os políticos, com os movimentos sociais”, disse o ministro, sob a condição de anonimato.

No seu entorno, porém, nem todos acreditam que o mandato serviu de experiência para Dilma a ponto de transformá-la numa presidente menos obcecada por detalhes e intransigente politicamente.

“O que existe na verdade é uma torcida para que ela tenha aprendido com os erros. A campanha eleitoral está sendo uma grande lição para ela, para o governo e para o PT”, disse uma pessoa que esteve perto de Dilma na campanha de 2010.

Um fato ocorrido nesta campanha deixou evidente a resistência da presidente para fazer correções de rota.

Ela vinha sendo aconselhada por aliados há meses a sinalizar que em um novo mandato faria mudanças, reconhecendo que o governo não acertou em tudo, e que também indicasse que trocaria a equipe econômica, cuja credibilidade junto ao mercado havia sido abalada. Diante desses apelos, Dilma resistia a uma inflexão.

Somente depois de uma conversa franca com Lula, seu tutor político, ela passou a dizer que faria mudanças na economia se reeleita.

“Foi preciso dizer a ela que teria que escolher entre o ministro da Fazenda (Guido Mantega) e a reeleição”, contou um aliado, referindo-se à conversa com Lula.

Se conseguiu ou não suavizar sua postura de durona nos últimos meses o fato é que Dilma criou entre aliados e escalões inferiores do governo um clima tenso.

Esse aliado que contou sobre a conversa com Lula faz um diagnóstico crítico do resultado de tanta intransigência.

“Ao longo dos anos ela dinamitou pontes com setores econômicos, partidos aliados e inclusive com o PT. Se for reeleita terá que reconstruir essas pontes e num ambiente político mais hostil, com desconfiança”, disse.

CONTROLE E TORTURA

Parte do fracasso da Dilma gestora está diretamente relacionado à postura controladora que sempre teve à frente dos ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil, cargos cujo perfil era mais gerencial e não de liderança.

Ela gosta de estar de olho em tudo, mesmo em questões banais. Também costuma discutir projetos dividindo o governo em áreas estanques, que não dialogam entre si e recebem recomendações diferentes, sem saber qual a posição exata da presidente sobre o tema em discussão. A presidente adota essa estratégia, em parte, porque é avessa a vazamentos para a mídia.

Isso também pode estar relacionado ao passado de Dilma na luta contra a ditadura, quando as organizações clandestinas atuavam por células, com segredos bem guardados até dos amigos.

Dilma participou da luta armada contra a ditadura que governou o país por 21 anos. Ela começou sua atuação na resistência ao regime militar em Belo Horizonte, onde era uma jovem de classe média. Mas o segundo ex-marido, Carlos Araújo, disse que Dilma “nunca pegou numa arma e nunca deu um tiro”.

Presa, sofreu torturas “extremamente cruéis”, segundo o ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Fernando Pimentel, seu amigo desde a juventude e eleito governador de Minas Gerais pelo PT, no primeiro turno.

É muito raro ela se referir publicamente a esse período, mas os xingamentos de que foi alvo na abertura da Copa do Mundo este ano, em São Paulo, levaram-na a abrir uma exceção.

No dia seguinte, em um evento oficial no Distrito Federal, Dilma disse que em sua vida tinha enfrentado agressões que chegaram “ao limite físico” e que não seriam ataques verbais que a abateriam ou a fariam se atemorizar.

“Suportei agressões físicas quase insuportáveis e nada disso me tirou do meu rumo, nada me tirou dos meus compromissos”, disse a presidente, indicando o quão importante é para ela manter suas posições independentemente do tipo de pressão.

Helvécio Ratton, de 65 anos, um cineasta que é amigo da presidente desde a universidade, disse que ele e Dilma foram atraídos para a resistência de esquerda por conta da impressionante desigualdade no país naquela época.

A descrição da adolescente estudiosa que Ratton faz é bem diferente da imagem pública hoje identificada com a presidente. Segundo o cineasta, ela era “muito engraçada”, o tipo de pessoas que “sempre ficava fazendo piadas”.

Ratton disse que ela mudou justamente depois ter sido presa e torturada. Para ele, o fato de Dilma ter feito carreira no mundo “masculino” da política brasileira também pode ter ajudado no seu novo comportamento.

A carreira administrativa e política, porém, a presidente construiu bem longe das montanhas de seu Estado natal, Minas Gerais. Os traços dessa nova Dilma foram moldados no Rio Grande do Sul, onde viveu e ajudou a fundar o PDT, partido ao qual pertenceu antes de se filiar ao PT em 2001.

Ratton faz uma ressalva sobre a personalidade da amiga: “Em particular, você ainda encontra a velha Dilma.”

DISTRAÇÃO DA VOVÓ

Não por acaso, a pessoa que consegue distrair a presidente de seus objetivos não tem nada a ver com sua vida pública. Trata-se do neto Gabriel, que abala a concentração dela quando está em Brasília ou mesmo pela Internet, quando ele está em Porto Alegre, onde mora.

Os assessores mais próximos costumam comemorar quando sabem que a ilustre visita está no Palácio da Alvorada.

Reportagem adicional de Brian Winter

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