24 de Novembro de 2016 / às 23:17 / em um ano

Temer buscou arbitrar conflito e estranha acusação de tentar enquadrar Calero, diz porta-voz

BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Michel Temer tentou arbitrar uma disputa entre seus ministros, mas sempre endossou uma “solução técnica” para o conflito entre o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero e o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, disse nesta quinta-feira o porta-voz da Presidência, Alexandre Parola.

Presidente Michel Temer durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília 24/11/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino

Em uma nota de cinco tópicos, lida pelo porta-voz, Temer negou que tenha feito pressão para que o ex-ministro resolvesse o problema para liberação de obra de edifício em Salvador, de interesse de Geddel, que teve a autorização negada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Geddel comprou um apartamento no 23º andar do prédio, mas o Iphan autorizou apenas 13 andares.

“O presidente buscou arbitrar conflitos entre os ministros e órgãos da Cultura sugerindo a avaliação jurídica da Advocacia-Geral da União, que tem competência legal para solucionar eventuais dúvidas entre órgãos da administração pública..., já que havia divergências entre o Iphan estadual e o Iphan federal”, disse o porta-voz.

Em depoimento à Polícia Federal, cujo teor foi confirmado à Reuters por uma fonte com conhecimento do assunto, Calero disse que Temer o pressionou e tentou enquadrá-lo para encontrar uma “saída” para a liberação do empreendimento imobiliário.

Temer também confirma que conversou duas vezes com Calero sobre o problema com Geddel para “solucionar o impasse e evitar conflito entre seus ministros”.

“O presidente trata todos seus ministros como iguais. E jamais induziu algum deles a tomar decisão que ferisse normas internas ou suas convicções”, disse o porta-voz.

Falando em nome do presidente, Parola informou ainda que Temer estranhou os “boatos” de que Calero teria pedido uma segunda audiência, no dia 17 deste mês, apenas para “gravar clandestinamente conversa com o presidente da República para posterior divulgação”.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, também divulgou nota admitindo que tratou do assunto com Calero, mas que apenas sugeriu que o caso fosse levado à Advocacia-Geral da União (AGU).

“Fui informado do Licenciamento de um edifício pelo Iphan, em discussão no âmbito do Poder Judiciário, então com várias decisões denegando o embargo de tal obra, e de que também existiam discordâncias entre dois órgãos da administração pública sobre o mesmo tema, razões pelas quais resolvi falar com o ex-ministro”, disse Padilha na nota, acrescentando que Calero ignorou a sugestão de levar o caso à AGU.

No último fim de semana, em entrevista à Reuters, Geddel reconheceu que tratou do empreendimento imobiliário com Calero, mas negou que tenha pressionado o então ministro.

Calero pediu demissão do governo na semana passada e, no fim de semana, acusou Geddel de pressioná-lo para interferir na decisão do Iphan de barrar o empreendimento.

CRISE

O depoimento do ex-ministro da Cultura, envolvendo o presidente nas acusações contra Geddel, pegou o Planalto de surpresa e irritou profundamente o presidente, a ponto de Temer optar por chamar seu porta-voz e responder ponto por ponto as acusações feitas por Calero, mesmo com parte de sua assessoria defendendo que não respondesse, alegando segredo de Justiça do depoimento.

Antes da divulgação do teor do depoimento de Calero à PF, o clima no Palácio do Planalto era de relativa tranquilidade com a aposta de que a crise com Geddel se acalmaria.

A avaliação era que a situação iria ser contornada e esperava-se até mesmo que Calero voltasse atrás nas suas declarações à imprensa.

Agora, disse à Reuters uma fonte palaciana, a crise se generaliza e chega a Temer, quando até este momento era focada em um ministro --mesmo que muito próximo ao presidente-- e dá pretexto para que o próprio Temer seja contestado e envolvido em um caso de aparente abuso de poder.

A possibilidade de mais denúncias contra Geddel, especialmente vindas das delações dos executivos da Odebrecht na Lava Jato, deixam Temer em uma situação complicada. Após as primeiras acusações de Calero, o presidente anunciou que manteria Geddel no cargo.

Geddel evitou nos últimos dias contato com a imprensa e não tem respondido os pedidos de comentários. O ministro deixou Brasília na quarta-feira.

O depoimento de Calero foi encaminhado pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF) que, por sua vez, encaminhou o caso à Procuradoria-Geral da República (PGR), a quem caberá decidir se pede à Corte abertura de inquérito para investigar as declarações feitas pelo ex-ministro. [nL1N1DP1FU]

Edição de Eduardo Simões e Raquel Stenzel

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below