27 de Novembro de 2016 / às 13:33 / em um ano

Cubanos preocupam-se com a vida após Fidel com Trump na vizinhança

HAVANA (Reuters) - Da invasão da Baía dos Porcos à histórica visita do Presidente Barack Obama à Havana, os cubanos sabem há gerações que sempre que os Estados Unidos voltassem seu olhar para Cuba, Fidel Castro estaria olhando de volta.

Cartaz com imagem de Fidel Castro ao lado da bandeira de Cuba em uma casa de Havana. 27/11/2016 REUTERS/Enrique de la Osa

Mas a morte do “El Comandante” se somou às preocupações dos cubanos de que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, fechará a porta do nascente comércio e viagens, desfazendo dois anos de distanciamento entre os vizinhos afastados.

Trump adotou um tom muito diferente do de Obama, que alcançou um acordo dois anos atrás com o irmão mais novo de Fidel, o presidente Raúl Castro, para acabar com meio século de hostilidades.

Mais tarde em sua campanha eleitoral, Trump buscou assegurar o voto cubano-americano na Flórida ao declarar estar firme em sua oposição aos Castro, e prometeu que, se eleito, fecharia a recém-reaberta embaixada norte-americana em Havana.

Antes, nas primárias, Trump disse que tudo bem restaurar os laços diplomáticos com Cuba, mas que Obama deveria ter buscado um acordo melhor.

Vencido as eleições, é difícil saber qual será a abordagem de Trump em relação à Cuba.

Após a morte de Fidel Castro, de 90 anos, Obama o chamou de “figura singular”, enquanto Trump descreveu o revolucionário comunista como “ditador brutal”.

Castro começou sua carreira como revolucionário derrubando um governo apoiado pelos Estados Unidos, repelindo uma invasão de contra-revolução apoiada pela CIA na Baía dos Porcos em 1961, e lutando contra o presidente John F. Kennedy na crise dos mísseis cubanos um ano depois.

Durante 49 anos no poder, ele cruzou espadas com dez presidentes norte-americanos. E, apesar de adotar um perfil mais discreto após se aposentar oficialmente em 2008, Castro nunca parou de alertar os cubanos de que não deveriam confiar no governo norte-americano.

Seu irmão mais novo nunca deu muito terreno à administração Obama em termos de liberalizar o sistema político de um só partido de Cuba.

Muitos cubanos, no entanto, acreditam que podiam com o carisma do último líder e seu jeito com as palavras frear o bombardeio de Trump.

“Com a morte do ‘El Comandante’, eu estou um pouco receosa do que pode acontecer por conta do modo de pensar e agir de Trump”, disse Yaneisi Lara, comerciante de rua de 36 anos de Havana e vendedora de flores.

“Ele pode recuar e bloquear tudo que têm acontecido, todas as coisas que Obama fez, e ele fez muito, conseguindo com que os EUA chegassem mais perto de Cuba”, disse ela, admitindo que consideraria se mudar para os Estados Unidos.

Obama não foi bem-sucedido em convencer o Congresso a acabar com o duro embargo econômico dos EUA sobre Cuba, mas se posicionou pessoalmente contra as sanções e usou de ações executivas para permitir maior contato e comércio.

O primeiro vôo comercial dos EUA à Havana em cerca de meio século deve chegar na segunda-feira.

Trump pode facilmente rever tais medidas. Ele não foi claro sobre seu posicionamento, mas incluiu Mauricio Claver-Carone, um dos principais defensores da manutenção do embargo econômico, em sua equipe de transição.

Sem dar detalhes, Trump disse no sábado que sua administração faria “tudo o que puder” assim que ele tomar posse, em 20 de janeiro, para ajudar a aumentar a liberdade e a prosperidade do povo cubano após a morte de Castro.

“Trump é o oposto de Obama”, disse o taxista de Havana Pablo Fernandez Martinez, 39, enquanto se apressava para o trabalho.

A vida em Cuba continua difícil para seu povo educado, mas sem emprego, mas o envolvimento com os Estados Unidos trouxe mais dólares ao país. Martinez teme que isso possa acabar uma vez que Trump se mude para a Casa Branca.

“Provavelmente haverá menos tráfego de turistas. Isso irá afetar todo mundo em Cuba, e atingir a economia”, disse o taxista, que recebe de US$100 a US$120 por semana dirigindo para estrangeiros.

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