6 de Dezembro de 2016 / às 22:52 / um ano atrás

Turbulência crescente coloca em xeque capacidade do governo para tirar país da crise

BRASÍLIA (Reuters) - No último mês, o presidente Michel Temer viu cair um de seus principais ministros, manifestações ganharem vulto, a economia manter os sinais ruins e, agora, o presidente do Senado, Renan Calheiros, seu aliado, ser afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal, em um cenário que levanta dúvidas se o governo será capaz de fazer o que prometeu e tirar o país da crise econômica, política e agora, institucional.

Temer durante evento no Palácio do Planalto. 5/12/2016. REUTERS/Adriano Machado

No Palácio do Planalto, os sinais de alerta cresceram nas últimas semanas. As manifestações do último domingo foram maiores do que o esperado inicialmente, infladas pelas ações recentes do Congresso, especialmente a descaracterização do pacote anticorrupção.

O alívio veio do fato de o Congresso ter sido o centro das reclamações, mas assessores presidenciais avaliam que, se a economia não melhorar, a fúria da população pode rapidamente se voltar contra o governo. E os sinais nesse front também não são bons.

Assessores próximos do presidente admitem que os problemas se avolumam, mas minimizam a crise, por enquanto.

“O que os empresários querem são sinais de que as coisas estão sendo feitas. Eles não querem outro presidente, querem esse e que ele faça o que diz que vai fazer”, disse à Reuters um assessor presidencial. “Eles sabem que a economia demora a reagir.”

No entanto, a própria equipe econômica admite internamente que esperava resultados mais rápidos e uma reação já no primeiro semestre de 2017 --a expectativa agora é de alguma evolução apenas no segundo semestre.

As críticas de aliados, representadas por entrevistas com “sugestões” dadas pelo economista Armínio Fraga, ligado ao PSDB, levaram o presidente a dar sinais públicos de prestígio ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

Entre eles, os elogios feitos na segunda-feira, durante a apresentação do projeto de reforma da Previdência, e a decisão de confirmar Dyogo Oliveira, interino desde junho, como ministro do Planejamento.

“Já temos uma crise de confiança tão grande quanto no governo Dilma. Não dá para enxergar uma estratégia para o país resolver seus problemas”, criticou o senador Cristovam Buarque, líder do PPS no Senado, partido que tem dois ministérios e é aliado de primeira hora do governo Temer.

Na semana passada, um grupo de senadores --José Aníbal (PSDB-SP), Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e Armando Monteiro (PTB-PE), além de Cristovam-- foram pedir medidas adicionais para destravar a economia, desburocratizar crédito e tentar acelerar resultados.

Uma característica de Michel Temer exaltada por seus defensores, também tem sido apontada por seus críticos como um dos problemas do governo: a “capacidade de diálogo”, que o presidente tanto defende, o faz ser capaz de negociar com o Congresso, mas não o faz um presidente capaz de achar soluções inovadoras ou de inspirar.

“Temer é um político com perfil de acomodação, não de ideias, de certezas, de liderança forte”, diz Rafael Cortez, cientista político da Consultoria Tendências.

ALARME

O afastamento de Renan Calheiros, seguido da decisão da Mesa do Senado de não aceitar a liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio Mello, alarmou o Palácio do Planalto e foi mais um capítulo em uma série de crises que o governo não tem conseguido administrar.

Mesmo problemático, Renan é um aliado do governo e garantia a pauta que interessa ao governo. Sua saída, que precisa ser confirmada pelo plenário do Supremo, e a suspensão da sessão do Senado desta terça-feira, colocam em risco a votação do segundo turno da PEC do teto de gastos --marcada para o próximo dia 13--, dando mais um sinal ruim para o mercado financeiro.

“A crise é muito maior do que um atrito entre o Legislativo e o Judiciário. Esse é só o conflito do dia. Talvez a gente tenha dado um passo à frente na direção do conflito maior, que tem como consequência a paralisia”, afirmou o cientista político Carlos Melo.

Temer afirmou, no segunda-feira, que é preciso “serenidade e paciência” para fazer o ajuste fiscal. Os brasileiros, no entanto, já demonstram impaciência com a falta de resultados. Na semana passada, os indicadores mostraram que o Produto Interno Bruto caiu pelo sétimo trimestre consecutivo, com queda de investimentos e de consumo.

As apostas do governo --teto de gastos para a União e a reforma da Previdência--, mesmo que sejam rapidamente aprovadas, são medidas de médio e longo prazos que dificilmente trarão resultados para o próximo ano, no qual o governo ainda trabalha com um déficit de 139 bilhões de reais.

“Temos uma terrível crise fiscal à frente e o governo apenas têm pensado em medidas de médio e longo prazos”, afirmou Monica de Bolle, economista brasileira do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Monica sugere que o país volte a apelar para o Fundo Monetário Internacional (FMI), um tema quase tabu no país. “O governo vai precisar de dinheiro e não tem sentido apenas sentar e esperar”, disse.

A soma de problemas políticos, econômicos e institucionais --sem falar nos legais, com uma super delação da empreiteira Odebrecht ameaçando atingir boa parte do governo e do Congresso-- minam a confiança ainda mais.

O Eurasia Group, uma consultoria política de risco, aumentou para 20 por cento, na última segunda-feira, o risco de que Temer não conclua seu mandato, citando o crescimento da insatisfação popular e o risco das investigações atingirem o próprio presidente.

Depois de já ter passado por um impeachment traumático, não são muitos os brasileiros ansiosos por outra interrupção no governo.

“Temos que esperar que melhore”, afirmou Rogério Chequer, um dos líderes do movimento Vem pra Rua. “Nós precisamos de desenvolvimento econômico, uma política melhor e precisamos sair desse impasse.”

Reportagem adicional de Eduardo Simões, em São Paulo

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