23 de Janeiro de 2017 / às 13:10 / em 9 meses

ANÁLISE–Primeiros dias da era Trump indicam aprofundamento da divisão política nos EUA

WASHINGTON (Reuters) - As calçadas dos quarteirões ao redor da Casa Branca amanheceram no domingo cheias de placas com os dizeres “Love Trumps Hate” (O Amor Vence o Ódio, em um trocadilho) e “Construa Pontes, Não Muros”, resquícios da Marcha das Mulheres em protesto contra as políticas do presidente dos EUA, Donald Trump.

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento na Casa Branca. 22/01/2017 REUTERS/Joshua Roberts

Tanto as mulheres e homens que participaram da manifestação em massa contra Trump em Washington, no sábado, quanto os apoiadores do presidente contemplaram os vestígios do protesto e ponderaram sobre as primeiras e agitadas 48 horas de governo do republicano.

Para Mary Forster, que participou de sua primeira manifestação política naquele dia, o final de semana só reforçou os temores de que o país está se dividindo ainda mais após uma eleição amarga.

“Sinto que estamos ficando ainda mais distantes”, disse Mary, especialista em regulamentos ambientais, de 42 anos, de Ithaca, em Nova York. “Realmente não existe mais meio termo. Parece que o estamos perdendo”.

Ela já votou tanto em democratas como em republicanos no passado, mas se sentiu motivada a marchar devido às preocupações causadas pelos comentários e plataformas do empresário e agora presidente Trump, muitos dos quais são vistos pela esquerda norte-americana como prejudiciais a mulheres e minorias.

Como Mary, milhões de mulheres, encorajadas por familiares e amigos homens, se uniram a marchas em várias cidades dos Estados Unidos, em um desafio a Trump que se mostrou muito maior do que o esperado.

“Antes havia mais coisas que nos uniam, e agora sinto que estamos mais divididos do que costumávamos ser”, afirmou Mary.

Essa visão é compartilhada por muitos compatriotas dela. Uma pesquisa do Centro de Pesquisa Pew divulgada na quinta-feira revelou que 86 por cento dos norte-americanos acreditam que a nação está mais segmentada politicamente do que no passado, muito mais do que os 46 por cento que tinham essa opinião oito anos atrás, pouco antes da posse do ex-presidente Barack Obama.

Democratas e republicanos concordaram com essa visão, uma mudança acentuada em relação a 2009, quando mais da metade dos republicanos e cerca de quatro de cada dez democratas acreditavam que o país estava se tornando mais dividido.

Para muitos observadores, a divisão provavelmente irá se exacerbar com Trump, que surpreendeu os dois partidos ao vencer a democrata Hillary Clinton na eleição de novembro e deixou sua marca na política internacional com discursos ríspidos e muitas vezes ofensivos.

“CONGRESSO PIORA”

“Assisti aos protestos ontem mas tinha a impressão de que acabamos de ter uma eleição! Por que essas pessoas não votaram?”, escreveu Trump no Twitter na manhã de domingo, acrescentando uma nota conciliatória: “Mesmo que eu nem sempre concorde, reconheço os direitos das pessoas de expressarem suas visões”.

A maioria dos participantes das marchas entrevistados pela Reuters disse ter votado na ex-secretária de Estado Hillary Clinton. As maiores manifestações aconteceram em Estados vencidos por Hillary na eleição, como Califórnia, Nova York, Illinois, Massachusetts e o distrito de Columbia.

O discurso de posse de Trump, na sexta-feira, ofereceu pouco no que diz respeito a mensagens de união.

O presidente fez um apelo diretamente a seus apoiadores, apontando para o quadro desolador de uma “carnificina americana” --um país repleto de fábricas enferrujadas e assolado pelo crime-- e prometeu que “deste dia em diante será somente a América em primeiro lugar”.

A visão sombria dos EUA que o presidente de 70 anos evoca com frequência é desmentida por estatísticas que mostram níveis baixos de desemprego e crime, mas Trump conquistou muitos votos em partes da nação onde a indústria manufatureira foi duramente afetada e as pessoas se sentem abandonadas.

O domínio republicano em Washington leva a crer que as divergências partidárias só irão se aprofundar, ao menos durante os dois próximos anos até as próximas eleições parlamentares.

“Não há dúvida de que Trump exacerbou as divisões que já existiam nos Estados Unidos em temas importantes, que vão da segurança nacional aos direitos civis e à mudança climática”, disse Wendy Schiller, professora de ciência política da Universidade Brown.

“Dividir o país é uma receita para se vencer eleições, mas não é uma receita para um governo bem-sucedido”.

Como os republicanos controlam as duas casas do Congresso, o partido não terá muita necessidade de buscar o consenso, e os democratas também podem preferir simplesmente protestar contra as propostas dos adversários, ao invés de negociar, para mobilizar sua base eleitoral para as eleições de meio de mandato, disseram observadores políticos.

“A ideologia dos parlamentares do Partido Democrata é à esquerda da média dos democratas, e o mesmo vale do lado republicano, estão à direita”, disse Jeffrey Berry, professor de ciência política da Universidade Tufts, nos arredores de Boston.

“O Congresso piora isso. Não é uma força moderadora”.

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