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Nacional

Brasil dá sinais de saída de platô da Covid-19, mas mortes e contaminações ainda são alarmantes

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Pela primeira vez desde meados de maio, o implacável número de mortes provocadas pela Covid-19 no Brasil indica ter começado um declínio.

Coveiro segura foto de homem que morreu de coronavírus durante enterro em cemitério de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro 20/08/2020 REUTERS/Pilar Olivares

O país registrou na última semana epidemiológica média de mortes por Covid-19 inferior a 900 por dia --a menor em três meses e meio--, sinalizando que pode estar, finalmente, descendo de um prolongado platô que o colocou como segundo do mundo com maior número de óbitos pela doença.

Uma análise dos dados do Ministério da Saúde feita pela Reuters apontou que as 6.212 mortes da semana epidemiológica encerrada no sábado representam o menor número semanal desde a semana encerrada em 16 de maio, quando foram notificados 5.006 óbitos. Nesse intervalo, o Brasil ingressou em um chamado platô, incluindo 13 semanas consecutivas com média de mortes semanal ao redor de 1.000 por dia.

Ainda assim, foram quase 890 mortes por dia em média por Covid-19 na semana, o que demonstra o enorme desafio que o país ainda tem pela frente para controlar a epidemia.

“Estamos em uma descendente em relação ao platô alto anterior. Entretanto, ainda são números elevados e temos que manter a vigilância para que este número não volte a crescer”, alertou o infectologista Roberto Medronho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio e Janeiro e líder do Grupo de Trabalho Multidisciplinar para Enfrentamento da Covid-19 da UFRJ.

O declínio recente decorre, na avaliação de especialistas ouvidos pela Reuters, principalmente da própria tendência da epidemia de se estabilizar após se espalhar com força por todas as regiões do país, a um enorme custo humano no caso do Brasil.

Epidemiologistas avaliam que a situação brasileira é um alerta para outros países emergentes que enfrentam uma elevação de casos do vírus, como México e Índia.

“O Brasil é um caso de alerta”, disse Albert Ko, professor da Escola de Saúde Pública de Yale, que tem décadas de experiência sobre o Brasil. Segundo o professor, a epidemia chegou com força ao Brasil, “e intervenções baseadas em evidências em muitos lugares não foram implementadas ou feitas corretamente”.

O isolamento social, apontado como principal ferramenta para conter a disseminação do vírus, uma vez que não existe vacina até o momento, tem se mantido baixo, diante da crescente pressão econômica pela retomada das atividades.

Uma análise da Reuters de dados de mobilidade do Google, que utiliza informações de movimentação de telefones celulares e as compara com o nível pré-pandemia, mostrou uma queda brusca do distanciamento desde abril.

O número de pessoas indo e voltando de locais de trabalho no Brasil, por exemplo, foi de uma redução de 37,8% em abril, na comparação com o índice pré-pandemia, para uma diminuição de apenas 16% em agosto. O movimento no transporte público também aumentou significativamente, de acordo com os dados.

“Temos que trabalhar, pois pagamos aluguel e o custo de vida é bem caro aqui no Rio”, disse a garçonete Patrícia Lima, que depois de ficar três meses em casa, voltou neste mês ao restaurante onde trabalha no centro do Rio de Janeiro.

Com a necessidade de pegar dois ônibus para sair de uma comunidade na zona oeste até o centro da cidade, ela relata uma jornada marcada pelo medo de ser contaminada.

“Onde eu moro demora muito para passar ônibus, porque diminuíram na pandemia, e chega sempre super lotado”, disse. “Tenho bastante preocupação, é muito perigoso, as pessoas ficam sem máscara no ônibus.”

A baixa adesão ao isolamento é considerada a principal responsável pela longa duração do platô, na avaliação de especialistas, e cenas de aglomeração como as registradas em praias do Rio de Janeiro no domingo colocam em risco a tendência de queda.

As medidas de isolamento voltadas a diminuir a transmissão do vírus foram afrouxadas em praticamente todo o país diante da pressão econômica e da posição do presidente Jair Bolsonaro, que sempre se mostrou contrário às quarentenas e criticou governadores e prefeitos que as decretaram.

Com restaurantes, bares, academias e shoppings abertos, o coronavírus encontrou terreno fértil para avançar pelo país, que fica atrás apenas dos Estados Unidos como o mais afetado do mundo, com mais de 3,8 milhões de casos confirmados e quase 121 mil mortes até domingo.

“Se a política do governo federal fosse distanciamento social como começou em março, os Estados não teriam feito as besteiras que fizeram”, disse Paulo Lotufo, epidemiologista, professor da Faculdade de Medicina da USP, crítico da reabertura precoce.

Segundo ele, a epidemia já poderia ter sido controlada no país se as localidades que não foram impactadas no momento de chegada do vírus, como o interior de São Paulo e os Estados do Sul e do Centro-Oeste, tivessem estabelecido quarentenas rígidas antes de serem afetados.

“Esses três locais basicamente tiveram a pandemia sem precisar ter, se tivessem tomado as medidas corretas, feito um controle adequado e mantido por mais um período, teriam evitado e o Brasil estaria em uma situação melhor”, acrescentou.

Nesta segunda-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que a retomada das atividades econômicas sem ter o vírus sob controle é a “receita para o desastre”.

“A gente precisa deixar claro que flexibilização não significa normalização, volta à vida anterior sem medidas de prevenção, com aglomeração, sem máscara, porque isso é menosprezar o esforço de milhões de pessoas que estão cumprindo o isolamento social há meses e, ainda pior, banalizar as milhares de vidas que já foram perdidas para a Covid-19”, disse Alexandre Naime, chefe do departamento de Infectologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Reportagem adicional de Stephen Eisenhammer, em São Paulo

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