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Com fiscal desarrumado, compromisso de não subir juros cai mesmo com inflação baixa, diz Kanczuk

BRASÍLIA (Reuters) - O diretor de Política Econômica do Banco Central, Fabio Kanczuk, afirmou nesta sexta-feira que a política fiscal é o “fator número 1” a determinar a atuação da política monetária no país, salientando a preocupação com as contas públicas, que tem sido uma constante nas comunicações recentes do BC.

Sede do Banco Central em Brasília. 29/10/2019.REUTERS/Adriano Machado

Em live do jornal Valor Econômico, Kanczuk destacou que o compromisso feito pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em sua última reunião de não elevar os juros é condicionado à manutenção da regra do atual regime fiscal, que inclui o mecanismo do teto de gastos, de forma que, mesmo que um eventual desarranjo fiscal se desse em um cenário de inflação baixa, os juros poderiam voltar a subir.

“(Se) você entra em uma situação em que o teto foi rompido, mas você ainda não tem uma visão clara de que a inflação vai subir, a cláusula fala que não importa. Mesmo que eu esteja obtendo inflações baixas por enquanto, se eu não tiver o fiscal em ordem, eu não quero ter o compromisso de manter o estímulo monetário”, afirmou o diretor.

“Eu sei que, se eu não tiver o fiscal em ordem, minha confiança nas projeções de inflação, no meu próprio modelo, cai muito, eu sei que em algum momento vai dar em inflação isso, não tem saída”, acrescentou.

O Copom adotou no mês passado o chamado “forward guidance” (orientação futura), por meio do qual se comprometeu a não elevar os juros à frente. O compromisso foi condicionado à manutenção do atual regime fiscal, à ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo e às expectativas e projeções para a inflação em 2021 e 2022.

Kanczuk afirmou que essa nova ferramenta de política monetária não tem data para acabar, mas que tende a ser um instrumento temporário. Ele frisou que, diferentemente de outras economias, o Brasil ainda não está em um estágio de vislumbrar inflação estruturalmente baixa por um período prolongado.

Sobre a possibilidade de novo corte de juros, Kanczuk afirmou que isso só acontecerá depois de o BC avaliar que o sistema financeiro está bem adaptado ao cenário de Selic baixa.

“O comitê tem que ter a confiança de que o sistema financeiro já está adaptado à nova situação de juros bem mais baixos, então está parando para observar, notar que tudo está funcionando de forma sólida”, afirmou, ao ser questionado sobre o que determinaria uma nova redução da Selic, hoje em 2%.

Kanczuk frisou que a autoridade monetária está acompanhando o funcionamento do sistema financeiro de perto e não detectou nenhum problema, mas entende que deve atuar com cuidado, diante das implicações do novo patamar de juros baixos para os produtos de investimento e o setor financeiro como um todo.

“É mais uma questão de cautela, de conservadorismo, a gente prefere ir devagar mesmo”, disse.

“Pode ter queda de juros? Pode. É provável? Não. A gente também colocou isso na ata (da última reunião do Copom), a barra para queda de juros é muito mais alta do que era antes, por questões prudenciais”, acrescentou.

Sobre a alta recente dos preços das commodities, Kanczuk disse que o BC espera que haja impacto sobre o IPCA nos próximos meses, para quando a expectativa é de inflação mais alta, mas frisou que o movimento será passageiro e não vai influenciar a política monetária.

COMPRA DE TÍTULOS É POSSIBILIDADE

O diretor disse, ainda, que o BC só avaliaria recorrer à compra de títulos do mercado (“quantitative easing” ou QE) em caso de disfuncionalidade do mercado e acrescentou que essa é uma possibilidade para os próximos meses diante da expectativa de que o Tesouro terá de emitir uma grande quantidade de títulos para fazer frente à expansão fiscal feita neste ano.

“A notícia relevante não vai ser uma notícia fiscal de risco, vai ser: o Tesouro tem que emitir um zilhão hoje, então começa a distorcer o mercado ou a gente vê a diferença entre os papéis do Tesouro e a curva muito grande”, disse Kanczuk.

“Então esses são motivos que a gente vai falar, não tem nada acontecendo sobre o ponto fiscal, não tem nada acontecendo com relação aos pares do Brasil, movimento de aversão a risco mundial, parece realmente um problema de liquidez, isso justifica uma intervenção do BC, nesse sentido de liquidez. É só nesse sentido que a gente faria algo em termos de QE, de compra de títulos”, acrescentou.

Ele reiterou que o BC não vê a alternativa, já autorizada pelo Congresso, como um instrumento de política monetária.

Caso o BC chegasse a um ponto em que avaliasse que não poderia mais reduzir os juros para estimular a economia como necessário, por limitações prudenciais, o mais provável é que consideraria então fazer um “forward guidance” mais agressivo, e não comprar títulos, disse o diretor. Segundo Kanczuk, uma alternativa hipotética seria atrelar uma alta do juro a uma inflação superior à meta.

“Posso fazer ‘forward guidances’ mais agressivos, mais extremos, acho que isso seria um caminho natural para fazer mais política monetária, e não outras coisas. Mas, de novo, não está nas cartas agora, muito pelo contrário, ninguém está pensando nisso”, afirmou.

VOLATILIDADE CAMBIAL

O BC não avançou muito na compreensão das razões que têm motivado a volatilidade elevada recente da taxa de câmbio no país, mas está menos preocupado com a questão e não tem planos de tentar reduzir, intervir e cancelar esses efeitos, disse Kanczuk.

“A gente um pouco perdeu a preocupação. Esse é um tema polêmico interno, que não tem consenso”, afirmou. O diretor ponderou que a volatilidade para contratos mais longos, que é mais relevante para os investimentos, aumentou pouco e, para o intradia, a autoridade monetária não teria instrumentos adequados para atuar.

“Se não está afetando de fato as tomadas de decisão de investimento de médio prazo, já que essa volatilidade está baixa, por que vou correr o risco de talvez distorcer o mercado de curto prazo, já que eu não tenho um problema tão claro, e a gente diminuiu a preocupação?”, questionou.

O real é a moeda mais volátil entre as principais divisas globais, superando rivais como lira turca, que sofre com queda nas reservas cambiais e inflação persistentemente alta.

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