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Nacional

Kassio Nunes afirma em sabatina que podem ser feitas correções na Lava Jato

BRASÍLIA (Reuters) - O desembargador Kassio Nunes, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, disse no Senado nesta quarta-feira que determinados atos e condutas na condução da Lava Jato podem ser passíveis de correção.

Desembargador Kassio Nunes é sabatinado na CCJ do Senado 21/10/2020 REUTERS/Adriano Machado

Nunes participava de sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) nesta quarta-feira por mais de oito horas. Uma vez concluídos os questionamentos dos senadores, o desembargador deve ter seu nome submetido a uma votação no colegiado. Há previsão de sua indicação ser votada pelo plenário do Senado ainda nesta quarta-feira.

“Em relação a se eu reconheço os méritos da operação Lava Jato, acho que talvez seja a pergunta uniforme em todo o Brasil. Acho que não há um brasileiro, um membro do Ministério Público ou um magistrado que não reconheça os méritos de qualquer operação no Brasil”, disse, durante a série de questionamentos.

“O que acontece, pode acontecer em qualquer operação, em qualquer decisão, em qualquer esfera, é: se houver determinado ato ou conduta, seja da autoridade policial, seja de algum membro do Ministério Público ou de algum membro do Poder Judiciário, essas correções podem ser feitas, nada é imutável”, argumentou.

O indicado à cadeira da suprema corte argumentou ser possível a realização de investigações de combate à corrupção e ao mesmo tempo garantir direitos fundamentais de suspeitos de envolvimento.

“Eu não verifico nenhum conflito entre ser um juiz garantista e isso de alguma forma atrapalhar na escorreita condução de feitos ou no combate à corrupção no Brasil. Ao contrário, eu acho que chegaremos a uma construção muito mais justa ao final e sem margem para qualquer nulidade no processo”, declarou.

Nunes foi questionado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor de um voto em separado contra a indicação do nome ao STF, se poderá declara-se suspeito ao julgar caso relacionado a empregadores de sua esposa, Maria do Socorro Carvalho Marques, que trabalhou em gabinetes dos senadores Elmano Ferrer (PP-PI), e por curto período, em secretaria da Casa sob o comando do senador Luis Carlos Heinze (PP-RS).

“Então, é muito difícil a importação dessa mão de obra. Quem é de Estado pequeno sabe disso. Então, as pessoas que detêm algum tipo de experiência e que já moram em Brasília têm o facilitador de serem contratadas. Foi o que aconteceu muito provavelmente”, disse, referindo-se à contratação da cônjuge do gabinete de Elmano.

“Eu não consigo, e já peço perdão a Vossa Excelência por isso, com exatidão dizer, mas ela já possuía uma experiência nesta Casa. Então, muito provavelmente, quando o Senador Elmano vislumbrou essa possibilidade, a contratou”, disse.

Acrescentou ainda, sobre o trabalho desempenhado por ela, que “o que faz eu sabia, e não sei lhe dizer porque nisso há alteração em gabinete toda hora” e que “sabia que fazia exatamente eram estas respostas: vindas de lideranças, de questionamentos ao gabinete”.

MONOCRÁTICAS

Mais cedo, Nunes alegou ter um histórico pessoal de decisões colegiadas.

Ao ser questionado sobre eventual adoção de decisões individuais quando estiver no STF, Nunes disse não saber “se encontrarão um provimento de uma apelação monocrática durante toda essa passagem” em atuações anteriores.

“E olha que eu tenho um acervo de julgamentos enorme. Eu sempre prestigiei o colegiado, ainda que eu tivesse a prerrogativa de fazer, que o tema abordado já fosse jurisprudência, a mim nunca me custou transformar ou não utilizar o mecanismo de uma decisão individual e levar para o colegiado.”

Durante os questionamentos dos senadores, Nunes fez referências a Deus, a orações e salmos, e chegou a mencionar associação de sua indicação a um “verdadeiro chamado”.

“Tenho a convicção de que o trabalho, o bom combate, é uma manifestação de Deus que nos conduz a todos em todos os ofícios profissionais, inclusive na magistratura, à busca da excelência, do correto, do melhor que seja possível fazer. Assim, na tarefa de servir ao público, continuarei a nortear todos os meus atos por esse princípio maior de justiça”, disse Nunes a senadores.

O desembargador se comprometeu com a busca pela garantia dos direitos fundamentais, da dignidade da pessoa humana, pela segurança jurídica, e por um desenvolvimento sustentável, além da harmonia e independência entre os Poderes da República. Nunes disse ainda que pautará seu trabalho pela valorização da vida, da família e dos “valores morais e cívicos brasileiros”.

CURRÍCULO

Nunes também falou sobre o mal-entendido envolvendo seu currículo, que traz palavra em espanhol e levantou dúvidas sobre atividade acadêmica no exterior. O relator da indicação, Eduardo Braga (MDB-AM), no parecer apresentado na última semana, referiu-se ao assunto como uma “confusão semântica”.

“Anoto que, em 2014, fiz um Curso de Postgrado en Contratación Pública”, disse Nunes nesta quarta.

“A expressão foi inserida com fidelidade e na forma exata como constou da programação do curso na Espanha. Não há menção, no meu currículo, sobre pós-graduação alguma na Espanha. Em algumas comunidades autônomas da Espanha, qualquer curso realizado após a graduação pode receber a denominação postgrado e não guardar nenhuma similitude com o que a expressão ‘pós-graduação’ significa no Brasil”, acrescentou o desembargador.

Em seu parecer, o relator da indicação, Eduardo Braga, que não pôde comparecer à sabatina por estar acometido pela Covid-19, ponderou sobre a controvérsia em torno do currículo.

“As explicações complementares prestadas em correspondência dirigida a todos os senhores senadores e senhoras senadoras afastam qualquer especulação sobre a boa-fé do indicado e a higidez das informações curriculares. Ainda que se verificasse alguma inconsistência concreta --o que não ocorreu e admite-se apenas para argumentar-- isso influiria muito pouco no exame dos requisitos constitucionais que adstringem esta Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania”, disse Braga, no relatório.

HARMONIA ENTRE PODERES

Ao defender harmonia entre os Poderes, afirmou que eventual interferência entre eles é inconstitucional.

“Os limites constitucionais fixados para o âmbito de atuação dos Poderes Judiciário, Legislativo e Executivo denotam a própria estrutura do Estado. Vulnerado esses limites em razão de ingerência de um Poder em área de competência estrita de outro Poder configura-se, ao meu sentir, situação de inconstitucionalidade”, defendeu Nunes.

“De fato, acredito que é inerente à fórmula constitucional de organização dos Poderes da República um sistema recíproco e interativo de autocontenção, que deve resultar em equilíbrio, temperança e harmonia na atuação de cada um desses pilares fundamentais do Estado.”

Visto como garantista, Kassio não deve ter dificuldades de ser aprovado para o cargo pelo Senado.

De acordo com a presidente da CCJ, senadora Simone Tebet (MDB-MS), a sabatina deve durar em torno de 10 horas.

Braga citou, em seu parecer, exemplos de decisões “bem fundamentadas de alto impacto econômico e social” do desembargador quando atuou no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Na lista de decisões relatadas por Braga, estão a que suspendeu, em 2018, ordem judicial de proibição de registro de produtos com as substâncias abamectina e glifosato; a suspensão, no mesmo ano, de ordem que impedia o ingresso de imigrantes venezuelanos no Brasil.

Outra decisão citada foi a que derrubou liminar que determinava a desocupação de 2,5 mil moradores não índios da comunidade Jarudore, no município de Poxoréu, em Mato Grosso; além da que manteve resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre rotulagem de produtos alergênicos.

Edição de Alexandre Caverni

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