24 de Fevereiro de 2016 / às 19:25 / em 2 anos

Dificuldades no tratamento aumentam sofrimento de mães de bebês com microcefalia na Paraíba

SÃO JOSÉ DOS CORDEIROS, Paraíba (Reuters) - Em uma casa simples no remoto sertão da Paraíba, Miriam Araújo levanta às 3h da manhã para iniciar uma viagem de três horas para levar o filho ao primeiro centro de tratamento de microcefalia do país.

Bebê com microcefalia durante fisioterapia em Campina Grande 17/2/2016 REUTERS/Ricardo Moraes

A fisioterapia é vital para o bebê de 5 meses, nascido com a cabeça menor do que o normal, dano cerebral e dificuldades motoras. Os médicos acreditam que Lucas –como centenas de outras crianças no país– sofre de microcefalia devido ao Zika vírus que sua mãe contraiu quando estava grávida.

Miriam, uma jovem de 25 anos, magra e de olhos vivos, realiza a árdua jornada de 280 quilômetros de ida e volta até três vezes por semana para ir a uma clínica em Campina Grande, a segunda maior cidade da Paraíba, um dos Estados mais pobres do país.

    Assolada por três anos de secas que destruíram as plantações de milho, sua família só tem uma velha motocicleta como meio de transporte. As autoridades de São José dos Cordeiros providenciaram um Fiat maltratado para conduzi-la por pelos 9 quilômetros de terra batida que a separam da cidade onde ela pega um microônibus para a distante clínica.

    O sofrimento da família de Miriam mostra como o sistema de saúde pública estava despreparado para o Zika quando o vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypto surgiu no ano passado no Brasil.

    Diante da distância e da dificuldade para organizar o transporte, nos primeiros cinco meses, Lucas não teve as sessões frequentes de massagens, alongamentos e estimulação visual necessárias para ajudar seu desenvolvimento mental.

Especialistas afirmam que essa perda pode ser irreversível.

    “Gostaria de poder ir com mais frequência”, disse Miriam. “Tenho medo de que eles parem de mandar o carro. Aí o que eu vou fazer?”

Embora o Zika tenha se disseminado mais rapidamente em cidades da Região Nordeste, como Recife, Miriam faz parte de um contingente crescente de mulheres dando à luz crianças com microcefalia no sertão.

Os mosquitos se reproduzem em meio ao esgoto ao ar livre e à água armazenada a céu aberto nas comunidades pobres da região, onde é comum encontrar as torneiras secas.

    Em um hospital de Campina Grande, cidade de 350 mil habitantes, as equipes médicas estão tratando 29 bebês com microcefalia. Entre todos, só seis não precisam percorrer grandes distâncias por não haver tratamento perto de suas casas.

O centro voltado à microcefalia ocupa três salas pequenas em um canto do hospital. A sala de fisioterapia tem um tapete verde e bolas de exercícios coloridas nas quais os bebês têm os músculos alongados. A visão é estimulada com exercícios.

    “Fala-se em abrir centros em outras cidades para que as mães não tenham que vir tão longe, mas não vejo isso acontecendo”, disse a secretária de Saúde da cidade, Luzia Pinto.

TRATAMENTO VITAL

    Ainda se sabe muito pouco sobre o Zika. O vírus foi detectado no Brasil em 2015 e desde então se espalhou por mais de 20 países nas Américas, levando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar o surto de Zika uma emergência de saúde pública mundial no dia 1º de fevereiro. Até agora o maior impacto foi no Brasil, especialmente entre os mais pobres.

Os cientistas ainda não provaram que o Zika causa microcefalia, embora o Brasil tenha confirmado mais de 500 casos em poucos meses, e o Ministério da Saúde acredita que a maioria tem relação com o vírus. As autoridades investigam cerca de outros 4 mil casos suspeitos.

A doença era tão rara antes –estimados 150 casos por ano- que não havia até então um clamor por tratamento.

    O centro de Campina Grande, que conta com neurologista, fisioterapeuta, psicólogo e otorrinolaringologista, exige cerca de 45 mil reais mensais para ser mantido.

    A secretária Luzia Pinto disse que esse valor pode duplicar nos próximos dois meses, à medida que mais crianças chegam para serem tratadas. Pesquisadores afirmam que os casos brasileiros são mais sérios do que o normal.

“Estamos vendo problemas neurológicos muito graves em muitos destes bebês, e a terapia de estímulo certa é absolutamente vital para lhes dar uma chance de desenvolver funções essenciais, como andar e falar”, disse a médica Alba Batista, neurologista do centro.

A Paraíba não é o único Estado onde problemas no sistema público de saúde têm sido agravados pela crise do Zika vírus.

No Rio de Janeiro, um quadro de “calamidade” tende a se agravar em decorrência do Zika e pode comprometer o atendimento a milhares de visitantes durante os Jogos Olímpicos, alertam médicos.

Enquanto isso, continuam a nascer mais bebês com microcefalia.

Em sua casa na pequena cidade de Congo, na Paraíba, Adilma de Oliveira, de 29 anos, contou ter tentado ficar grávida durante quase 10 anos.

    Sua alegria se transformou em dor quando seu bebê, que nasce no mês que vem, foi diagnosticado com microcefalia.

    “Estou com medo do futuro”, disse Adilma. “Nem quero pensar nisso.”

Com reportagem adicional de Pedro Fonseca, no Rio de Janeiro

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