May 12, 2016 / 10:12 AM / 2 years ago

PERFIL-Temer deixa marca da discrição para assumir Presidência e tentar tirar país da crise

SÃO PAULO (Reuters) - Articulador habilidoso, conciliador, paciente, humilde são algumas das qualidades do presidente interino Michel Temer que o tornam o político “adequado para esse momento”, na visão de seus aliados. Talvez uma outra habilidade, construída ao longo de muitos anos à frente do maior partido do país, seja a mais necessária agora: equilibrista.

Vice-presidente Michel Temer durante evento em Brasília. 11/04/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino

Chamado por muitos como uma “federação de partidos”, o PMDB tem vários grupos regionais de peso e importância quase equivalentes que tornam praticamente inútil o esforço por uma unidade completa, mas que requerem ainda assim um comando nacional para equilibrar os diferentes interesses.

Presidente do partido desde 2001, Michel Temer terá que usar toda a capacidade que desenvolveu nesses anos na complexa missão de manter o equilíbrio entre um necessário e doloroso ajuste fiscal, a manutenção de programas sociais, a condução de reformas estruturais e respostas a demandas dos mais variados setores, especialmente do Parlamento, peça-chave nisso tudo.

“É o político perfeito da atualidade, adequado para esse momento... conciliador, paciente, um líder tem que ser paciente”, disse à Reuters um cacique do PMDB. “Ele compreende o problema do outro”, afirmou.

“É muito respeitoso e atencioso nas conversas, tem um traço forte de humildade —se oferece para ir encontrar seu interlocutor, em vez de recebê-lo”, ressaltou um ex-ministro não peemedebista da presidente Dilma Rousseff.

Deputado federal por seis mandatos, Michel Miguel Elias Temer Lulia presidiu a Câmara dos Deputados em três biênios —1997/1998, 1999/2000 e 2009/2010, o que lhe deu uma enorme experiência parlamentar e de negociação.

Os apoiadores de Temer dizem que sua longa carreira política atuando em todo o espectro ideológico —presidiu a Câmara tanto no governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, como no de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT— faz dele um líder forte, mas ao mesmo tempo pacificador, para uma transição.

    “Ele é um político bom, experiente”, disse Moreira Franco, um dos homens fortes do novo governo. “Seus valores incluem a moderação, a prudência e a sabedoria... ele trabalha mais como um pacificador do que como alguém que cria conflitos.”

Um exemplo dessa característica, segundo um outro cacique peemedebista, foi quando assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, pela segunda vez, no início de 1993, pouco depois do massacre do Carandiru.

“Temer assumiu para pacificar a polícia”, disse o peemedebista. “Ao mesmo tempo que é conciliador, faz valer sua autoridade.”

Apesar das disputas políticas ferozes e variadas transcorridas na Câmara, Temer era conhecido por se manter acima das refregas. Aos 75 anos, esse paulista de Tietê raramente ergue a voz, tem fama de jamais dizer palavrões e se abstém da gesticulação e da teatralidade quase obrigatórias a que seus pares recorrem em debates.

Parecia ter atingido o pico de sua carreira com a eleição como vice-presidente da República em 2010, na chapa encabeça por Dilma. Isso mudou conforme os ventos do impeachment se transformaram na tempestade que derrubou a petista.

DEIXANDO A DISCRIÇÃO DE LADO

Nesse processo, deixou de lado uma das características pelas quais é mais conhecido, a discrição. Conforme o movimento pelo impedimento da presidente ganhava força, Temer não se contentou com uma postura passiva, simplesmente afastando-se dela e esperando que a situação se resolvesse, de um modo ou de outro, sem seu envolvimento.

Acabou trabalhando ativamente para regimentar forças favoráveis ao impeachment, negociando com deputados e líderes partidários, tendo um papel que, quase certamente, foi chave no desfecho que acabou acontecendo.

Antes mesmo da confirmação de Temer como companheiro de Dilma para a eleição de 2010, o historiador Luiz Felipe de Alencastro já apontava a “situação paradoxal” que seria uma chapa formada pelos dois.

“Uma presidenciável desprovida de voo próprio na esfera nacional, sem nunca ter tido um voto na vida, estará coligada a um vice que maneja todas as alavancas do Congresso e da máquina partidária peemedebista”, disse Alencastro em texto publicado em 2009. O título do artigo não poderia ter sido mais premonitório: “Os riscos do vice-presidencialismo”.

Em agosto do ano passado, uma declaração de Temer, quando ainda exercia a função de articulador político do governo Dilma, gerou extrema irritação entre os petistas em geral e os auxiliares mais próximos da presidente em especial.

“É preciso que alguém tenha a capacidade de reunificar, reunir a todos e fazer este apelo e eu estou tomando esta liberdade de fazer este pedido porque, caso contrário, podemos entrar numa crise desagradável para o país”, disse após uma reunião com líderes partidários.

Num momento em que o impeachment ganhava fôlego, diante da baixíssima popularidade da presidente e do aprofundamento das crises econômica e política, Dilma e seus auxiliares consideraram que Temer, ao falar o que falou, se colocava como esse “alguém” para reunificar o país.

O vice rejeitou que sua intenção fosse se colocar como alternativa de poder, mas a relação com Dilma, que nunca foi boa, só piorou depois disso. Uma carta pessoal à presidente, vazada, na qual fazia inúmeras queixas, foi outro episódio que riscava a discrição da sua atuação política.

O ápice disso foi o vazamento, segundo ele por equívoco, de um discurso no qual falava, dias antes da votação, como se a Câmara tivesse aprovado o impeachment da presidente.[nL2N17E1QM]

Agora deixa definitivamente para trás os bastidores dos últimos meses para ocupar o palco central do teatro político nacional.

Graduado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mestre e doutor na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é autor de livros de direito e de uma coletânea de poesias intitulada “Anônima Intimidade”.

Casado com Marcela Temer, quase 43 anos mais jovem, tem um filho com ela, três de seu primeiro casamento e mais um de outra relação.

Reportagem de Maria Carolina Marcello, Leonardo Goy, Brad Brooks e Lisandra Paraguassu

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