29 de Julho de 2016 / às 19:37 / em um ano

Armas, câmeras e grades: segurança é preocupação central de laboratório antidoping do Rio

Radler, diretor do LBCD em entrevista à Reuters 29/7/2016 REUTERS/Nacho Doce

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Cercado por uma grade de metal alta e vigiado por militares armados com fuzis, o laboratório responsável pelos exames antidoping dos Jogos Rio 2016 montou um forte esquema de segurança para tornar “impossível” qualquer tentativa de violar as amostras e testes da Olimpíada, diante da enorme preocupação internacional com o tema após o escândalo envolvendo a Rússsia.

O Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) considera a proteção seu principal desafio para a operação antidoping da Olimpíada, uma vez que conseguiu solucionar problemas técnicos que provocaram a suspensão antes dos Jogos.

Liberado este mês, o laboratório agora está totalmente operacional e pronto para a Olimpíada que começa dia 5 de agosto.

“O maior desafio que o LBCD tem hoje não é tecnológico nem técnico”, disse o diretor da instalação, Francisco Radler, em entrevista à Reuters realizada do lado de fora do prédio de cinco andares, exatamente por limitação de acesso ao local devido à segurança.

“Agora é o laboratório não só poder demonstrar que tecnicamente vai estar na melhor condição possível para um laboratório no momento, mas tem também que demonstrar que aqui será impossível que aconteça algo como ocorreu no laboratório da Rússia”, acrescentou.

Antes concentrada principalmente em descobrir as técnicas de dopagem dos atletas, a luta contra o uso de substâncias ilegais no esporte ganhou um novo capítulo recentemente com as revelações feitas pelo ex-diretor do laboratório antidoping de Moscou Grigory Rodchenkov sobre a existência de um programa de doping na Rússia envolvendo o governo e até mesmo os serviço de inteligência FSB.

A denúncia, confirmada este mês por um relatório independente contratado pela Agência Mundial Antidoping (Wada) afirma que o FSB desevolveu um método para violar as amostras de urina sem que fossem detectadas durante os Jogos de Inverno de Sochi 2014. Segundo Rodchenkov, existiu uma operação secreta noturna para retirar amostras através de um buraco na parede do laboratório russo, que então eram trocadas por amostras limpas dos mesmos atletas.

Diversos atletas russos, incluindo toda a equipe de atletismo, foram banidos da Olimpíada devido ao doping.

No Rio, o acesso ao laboratório passou a ser restrito apenas a um grupo de cerca de 200 pessoas que passaram por uma verificação da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos. Cinco nomes foram vetados pelas autoridades de segurança e dispensados dos serviços no LBCD, segundo Radler.

Além do acesso limitado, o complexo conta com 200 câmeras de segurança que conseguem mapear todos os cantos do laboratório, localizado dentro do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), à qual está vinculado. Quase 50 agentes de segurança, entre eles homens da Força Nacional, vão se revezar em turnos para proteger o local 24 horas por dia durante a Olimpíada.

“O problema da segurança, do controle do acesso das amostras, da segurança do pessoal que entra e sai aqui no nosso complexo, é infinitamente maior do que aconteceu nos Jogos Olímpicos anteriores”, afirmou.

LIBERADORES DE HORMÔNIOS

Durante a Olimpíada o laboratório deve realizar cerca de 6.000 exames antidoping, 1.000 a mais dos que nos Jogos de Londres 2012, em busca de flagrar as mais de 500 substâncias proibidas pela Wada. Entre 250 e 300 pessoas vão trabalhar diretamente na área técnica, incluindo cerca de 100 especialistas estrangeiros, como também aconteceu nas últimas edições dos Jogos.

“Aqui estará reunido o que melhor existe de conhecimento em relação ao controle de dopagem”, disse Radler.

A previsão é de que as amostras levem apenas uma hora entre serem colhidas até chegaram ao laboratório. O compromisso do LBCD é entregar os resultados em 24 horas quando houver segurança da análise, o que deve ocorrer na maioria dos casos. Procedimentos mais complicados podem levar até três dias.

Depois das eras dos anabolizantes e do chamado doping sanguíoneo, o EPO, a tendência atual dos esportisas que buscam maneiras irregulares de melhorar o rendimento é o uso de liberadores de hormônios, segundo Radler, formado em química na própria UFRJ e com pós-doutorados nas universidades de Cambridge e Estrasburgo.

“A tendência obviamente dos atletas é migrar para as situações que ainda não estão muito bem implementadas dentro de laboratórios de controle de dopagem, e com isso então você tem sempre uma tendência a novidades”, disse. “Agora os atletas estão tomando o que nós chamamos de liberadores de hormônios. Eles tomam substânncias que fazem com que seu organismo libere o hormônio, que antes era aquilo que eles tomavam.”

O doping genético, uma tendência monitorada pelas autoridades antidopagem nos últimos anos, também já poderia ser descoberto pelo LBCD, mas ainda não foi definido pelo COI e pela Wada se esses testes serão realizados nos Jogos do Rio.

SUSPENSÃO TEMPORÁRIA

A construção do LBCD foi um compromisso da candidatura brasileira para para organizar os Jogos Rio 2016.

O laboratório havia perdido o credenciamento internacional em 2013 devido à defasagem de equipamentos, o que forçou a realização dos exames antidoping da Copa do Mundo de 2014 em Lausanne, na Suíça, mas foi recredenciado em maio do ano passado após receber investimento federal de 188 milhões de reais em obras e na compra de novos equipamentos e materiais para ser modernizado com vistas aos Jogos de 2016.

No mês passado a Wada suspendeu provisoriamente o LBCD, mas o local voltou a ter permissão para fazer exames menos de um mês depois, após receber uma inspeção da Wada. Segundo Radler, a suspensão foi ocasionada por um problema técnico ligado aos novos equipamentos.

“É um evento normal dentro de um sistema de controle de qualidade do laboratório, que levou o laboratório a comunicar a agência mundial antidopagem que havia um procedimento que ele entendia que necessitava de uma melhoria”, disse. “A suspensão foi retirada e nós continuamos com a mesma acreditação.”

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