August 6, 2019 / 3:00 PM / 2 months ago

ESPECIAL-Amizade com Trump não tira do caminho de Eduardo dificuldades no cargo de embaixador

BRASÍLIA (Reuters) - A decisão do presidente Jair Bolsonaro de indicar o filho Eduardo, deputado federal pelo PSL, para a embaixada brasileira em Washington preocupa embaixadores experientes, que veem na suposta relação próxima entre o parlamentar e a família Trump uma credencial nem de longe suficiente para exercer bem uma das funções mais complicadas da diplomacia brasileira, e algo que pode até atrapalhar em alguns círculos e situações.

Deputado Eduardo Bolsonaro 12/03/2019 REUTERS/Ueslei Marcelino

“Embaixador não liga diretamente para presidente, liga para pessoas que trabalham com o presidente”, disse à Reuters o embaixador Rubens Barbosa, que serviu durante seis anos em Washington, nos governos de Fernando Henrique Cardoso e no primeiro ano de Luiz Inácio Lula da Silva.

Barbosa ressalta que a suposta relação entre Eduardo Bolsonaro e a família do presidente Donald Trump pode ser um trunfo para o filho do presidente, mas apenas isso não resolve toda a gama de interesses que o Brasil tem no país.

“Para o embaixador ser efetivo precisa ter acesso e construir sua influência junto ao governo mas também junto ao Congresso, think tanks, organismos internacionais”, argumentou Barbosa.

Desde 1966 o Brasil indica apenas diplomatas de carreira para a embaixada em Washington, nomes normalmente experientes. Em alguns casos, como o de Sérgio Amaral, indicado pelo governo Michel Temer que deixou o cargo em abril, aposentados.

O último não diplomata foi Juracy Magalhães, ex-governador da Bahia, indicado pelo primeiro presidente do regime militar, Humberto Castelo Branco. Esse histórico não é por acaso.

“A principal tarefa do embaixador é a defesa do interesse nacional. Como embaixador eu não falava o que eu queria, mas falava o que o Brasil precisava que eu falasse”, disse Barbosa.

ELOGIOS E RISCOS

Na viagem do presidente aos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro, apesar de não ter funções oficiais na administração federal, ajudou a preparar a visita do pai. Durante o encontro com Donald Trump na Casa Branca, foi o único a ficar no Salão Oval durante o encontro privado dos dois presidentes, a convite de Trump.

Recentemente, o presidente norte-americano, ao ser questionado pela imprensa brasileira sobre a possibilidade de Eduardo ser o embaixador brasileiro em Washington, disse que o deputado era um jovem “excepcional”.

Os elogios de Trump são uma das justificativas de Bolsonaro para a indicação do filho, sob a alegação da sua proximidade com a Casa Branca.

Essa proximidade, no entanto, tem o lado inverso: a identificação de Eduardo com os Trump faz torcer o nariz o Partido Democrata, que hoje controla a Câmara dos Deputados, por onde passam diversos interesses brasileiros.

“O Partido Democrata não vê com bons olhos essa indicação porque ela se vê revestida de um caráter, digamos assim, muito pessoal. Sem falar que o futuro é uma incógnita, você não sabe o que vem por aí”, disse à Reuters um experiente diplomata que já ocupou o posto máximo da carreira em embaixadas importantes para o Brasil, lembrando que Trump terá uma campanha de reeleição no próximo ano.

Não foram poucas as vezes em que Jair Bolsonaro defendeu claramente a reeleição do republicano —a quem recentemente chamou de seu “ídolo”—, o que aumenta a má vontade do Partido Democrata, já sem simpatia alguma pelo presidente brasileiro. No caso de uma derrota de Trump, a indicação de Eduardo poderia dificultar, mais do que ajudar, as relações brasileiras.

Um outro experiente diplomata ouvido pela Reuters ressalta que o Congresso norte-americano é quem, em geral, efetivamente manda na política comercial dos EUA e nem sempre segue aquilo que o presidente quer.

“A política comercial norte-americana é resultado de um jogo de interesses absurdamente complexo”, aponta.

Além dos riscos claros de uma dificuldade de relacionamento com outros grupos, a excessiva identificação da família Bolsonaro com o governo Trump gera o temor entre fontes ouvidas pela Reuters de uma política que acabe por ceder mais do que deveria a pressões norte-americanas.

INEXPERIÊNCIA

Ao defender a indicação do filho, o presidente destaca o fato de Eduardo ser o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e falar inglês e espanhol. Desde a campanha, o deputado tem se dedicado à área internacional, fez contatos no exterior e virou amigo de Steve Bannon, o ex-assessor de Trump conhecido pelas posições de extrema-direita. Sua experiência na diplomacia, no entanto, é nula.

Formado em direito, escrivão da Polícia Federal, deputado federal mais votado da história, Eduardo, aos 35 anos, completou a idade mínima para ser embaixador no último mês de julho. No dia seguinte foi anunciado ao cargo pelo pai — em mais uma gafe do atual governo, que revelou a indicação antes mesmo que tivesse sido enviado o pedido de agrément, um documento diplomático que costuma ser classificado como ultrassecreto para não constranger o país anfitrião.

Ao defender sua própria indicação, Eduardo virou piada por ter contado, ao destacar sua experiência internacional, que morou nos Estados Unidos e “fritou hambúrguer”.

Um tarimbado diplomata explica que a experiência da carreira vai além da simples vivência internacional.

“Chefes de posto têm uma tripla tarefa: informar, representar e negociar. Diplomatas são treinados para isso, vão aprendendo ao longo da carreira, e o fazem com alguma desenvoltura”, disse à Reuters essa fonte.

Rubens Barbosa lembra outro cuidado: mesmo a defesa dos interesses brasileiros precisa se feita com “comedimento”.

“Se o embaixador falar essas coisas que tem muita repercussão pode ser ruim para o Brasil”, destaca.

Parlamentar, Eduardo não é exatamente conhecido pelo comedimento. Foi dele a declaração de que para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) bastaria “um soldado e um cabo”. Já defendeu mexer na Constituição para incluir a pena de morte para crimes hediondos e não abandona as postagens polêmicas nas redes sociais.

Por fim, um dos diplomatas ouvidos pela Reuters lembra que a função pode não ser tão divertida assim. Ressalta que a relação com os Estados Unidos é estratégica para o Brasil, mas o Brasil está muito longe na lista de prioridades norte-americanas.

“Em muitos lugares é muito frustrante para o embaixador de um país como o Brasil querer fazer coisas e simplesmente não ter a atenção do país ou dos dirigentes.”

Os Estados Unidos ainda não responderam o pedido de agrément para Eduardo, mas não há dúvidas no Itamaraty de que será aceito. Enquanto isso, Bolsonaro trabalha para evitar uma derrota do filho no Senado, onde tem que passar por uma sabatina na Comissão de Relações Exteriores e pela aprovação do plenário em votação secreta.

O Brasil está sem embaixador em Washington desde a saída de Sergio Amaral, em abril.

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